A Máscara Cai
O Salão de Gala da Solaris não era mais um centro de negócios; era uma câmara de execução. O silêncio que se abateu sobre os investidores era absoluto, cortante como o aço de uma lâmina. No centro, Marcos Viana, cujas mãos tremiam visivelmente, tentava segurar a lapela de seu terno importado, como se isso pudesse manter sua dignidade intacta. Ele estava isolado. Seus aliados, os mesmos homens que horas antes brindavam à sua expansão, agora desviavam o olhar, temendo a contaminação financeira.
— O jogo acabou, Viana — a voz de Arthur Valente ecoou, calma e desprovida de qualquer raiva. Era a voz de quem detinha o livro-razão de uma vida inteira de crimes. — A Solaris não pertence mais a você. O controle acionário foi transferido, não por uma negociação, mas por dívidas que você nunca teve o direito de contrair.
Arthur caminhou lentamente entre as mesas. Ele não usava mais o avental sujo do restaurante, mas a sua presença carregava o peso de um homem que serviu por anos a fio, apenas para observar a arrogância dos que o rodeavam. O contraste era brutal: a elite da cidade, antes intocável, agora parecia pequena, quase irrelevante diante daquele cozinheiro que, em uma única noite, redesenhou o mapa do poder local.
— Você não passa de um oportunista — sibilou Viana, os olhos injetados de ódio, esquecendo-se da etiqueta social. — Você acha que pode simplesmente aparecer e reclamar o que não é seu? Eu construí cada tijolo desta holding!
— Você construiu um castelo de cartas sobre o terreno da minha família — Arthur respondeu. — E as cartas acabaram de voar.
O brilho dos lustres de cristal parecia zombar da palidez de Viana. O magnata, até minutos atrás o dono absoluto daquela sala, agora via seu império ser desmantelado em telas de LED por um homem que ele tratava como um subalterno. O silêncio era cortado apenas pelo zumbido dos servidores que processavam a transferência forçada de ativos para a holding de Arthur. Viana, cego pela fúria, deu um passo vacilante e avançou contra Arthur, os dedos crispados em um gesto de ataque físico, uma última tentativa patética de recuperar a face.
Arthur não hesitou. Antes que o magnata pudesse fechar o punho, Arthur girou sobre o próprio eixo, uma dança de precisão ancestral. Ele interceptou o braço de Viana, aplicando uma torção no pulso que forçou o homem a cair de joelhos no mármore polido. Foi um movimento seco, clínico, a assinatura de um Dragão que não precisava gritar para ser temido. O som do impacto dos joelhos de Viana contra o chão foi o martelo final selando a transação da noite.
— O poder não é o que você grita, Viana — Arthur disse, mantendo a pressão sobre a articulação do oponente. — É o que você controla. Você nunca foi o dono da Solaris; você era apenas o zelador que eu permiti ocupar o lugar.
Ao soltar o magnata, que permanecia no chão, derrotado e sem fôlego, Arthur sentiu a presença de Dona Helena ao seu lado. Ela não disse uma palavra, mas seus olhos, carregados de uma história que a cidade tentou apagar, encontraram os dele. Ela entregou-lhe um envelope selado com o brasão dos Valente, o registro contábil final que faltava.
— O cativeiro do seu pai — ela sussurrou, a voz embargada pela urgência. — Está codificado aqui. A Solaris era apenas a fachada, Arthur. O verdadeiro inimigo, aquele que financiou a ruína da nossa casa, está muito acima desta sala.
Arthur guardou o documento, sentindo o peso do selo real em seu bolso. A vingança contra Viana era apenas o primeiro degrau. A verdadeira guerra, contra a corporação que movia as cordas da cidade, estava apenas começando.