Chapter 5
O ar na UTI de elite do Hospital São Paulo não cheirava a cura; cheirava a desespero disfarçado de desinfetante caro. Roberto, o patriarca cuja assinatura valia bilhões, estava prostrado sob o brilho frio das luzes cirúrgicas. Sua pele, antes bronzeada pelo sol de Angra, agora exibia o cinza ceroso de quem perdeu o controle sobre o próprio corpo. Ao ver Lucas, seus olhos, ainda carregados de um desprezo que o tempo não curara, tentaram disparar uma ordem, mas a fraqueza o traiu com um espasmo no peito.
— Você... — a voz de Roberto falhou, abafada pelo ritmo rítmico e cruel do monitor cardíaco. — O que faz aqui? Saia. Não quero um estagiário de caridade perto do meu leito.
Lucas não recuou. Ele ajustou o relógio de pulso, um gesto de precisão que funcionava como um metrônomo para a sua paciência. Sem dizer uma palavra, ele retirou o prontuário do bolso do jaleco. Não era apenas papel; era a prova da dosagem letal de anticoagulante que a equipe de elite, sob ordens diretas de Roberto, havia administrado por um erro de cálculo criminoso.
— A segurança não vai te salvar do que está registrado aqui, Roberto — a voz de Lucas era cortante, desprovida de qualquer emoção que não fosse a frieza técnica. — A equipe em que você tanto confia cometeu uma falha primária. Se eu sair por aquela porta agora, o relatório chega ao conselho de ética. Sua vida e o legado da holding dependem inteiramente da minha discrição. Quem é o descartável agora?
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Roberto, o homem que sempre controlou o destino de centenas, viu seu rosto travar. Pela primeira vez, o desprezo foi substituído por um pavor silencioso. Ele percebeu que a traição não vinha apenas de fora, mas de dentro de suas próprias paredes.
Ao sair da UTI, Lucas foi interceptado por Beatriz no corredor privativo. O som dos saltos dela contra o mármore ecoava como tiros. Ela não perdeu tempo com amenidades.
— Você está perdendo tempo vigiando o CFO, Lucas. O traidor não está na contabilidade, está no conselho — ela sibilou, os olhos afiados como bisturis. — O Grupo Viana iniciou a compra hostil. Eles estão devorando as ações enquanto o vovô definha. A fusão bilionária está sendo drenada para contas offshore enquanto falamos.
Lucas sentiu o peso da revelação. A crise cardíaca de Roberto não fora um acidente; fora o sinal de largada para um golpe corporativo. Beatriz estendeu um envelope pardo contendo logs de acesso. O traidor era alguém com a chave do cofre e o sangue do patriarca nas mãos.
Lucas seguiu para o posto de enfermagem, onde a equipe de elite, liderada pelo Dr. Arantes, tentou manter uma postura de superioridade. Ao verem Lucas, o Dr. Arantes abriu a boca para protestar, mas Lucas o interrompeu antes que o primeiro insulto fosse proferido.
— A dosagem de anticoagulante não foi um erro de digitação, Arantes. Foi negligência protocolar. Tenho o log digital da bomba de infusão. Se isso vier a público, sua carreira acaba e o hospital perde a acreditação. Quer ser o bode expiatório de um colapso bilionário?
O silêncio dos médicos foi ensurdecedor. Residentes e especialistas baixaram o olhar, a humilhação pública sendo a única resposta possível diante da prova documental. Lucas não precisou gritar; sua autoridade emanava da precisão de seus dados. Ele caminhou para a sala de cirurgia, deixando um rastro de medo e silêncio atrás de si.
Dentro da sala de preparação, o tablet de Lucas vibrou com uma notificação em vermelho vivo: ativos digitais da holding estavam sendo drenados para contas offshore. A operação era um relógio em contagem regressiva. Se Roberto morresse na mesa, a transferência seria irreversível e a família, reduzida a cinzas. Lucas ajustou as luvas de látex, o estalo metálico ecoando na sala vazia. Ele era agora o único guardião do império, e o bisturi em suas mãos era a única arma contra a ruína total.