Chapter 4
O som metálico do bisturi sendo descartado na bandeja de aço inoxidável ecoou pelo centro cirúrgico como um veredito. Lucas retirou as luvas manchadas, cada movimento preciso, desprovido da adrenalina que paralisava a equipe de elite ao seu redor. Ele não precisava de aplausos; o silêncio atônito dos cirurgiões, cujas carreiras ele acabara de salvar da ruína, era a única validação que importava.
— O CFO está estável — Lucas declarou, a voz fria cortando o ar condicionado gélido da UTI. — A hemorragia foi contida. Se o protocolo de anticoagulantes for seguido à risca nas próximas seis horas, ele sobrevive.
Beatriz estava parada à porta, os dedos cravados na prancheta de couro. Seus olhos, antes carregados de desdém, agora rastreavam Lucas como quem observa um predador que acabou de revelar as garras. Atrás dela, o Patriarca Roberto, o homem que construíra um império sobre a humilhação alheia, observava com o maxilar travado. A fortuna da família, bilhões em ativos de infraestrutura, dependia inteiramente daquele homem que Lucas acabara de resgatar de um erro médico crasso.
— Você não tinha autorização — Beatriz sibilou, embora sua voz não carregasse mais o veneno habitual, apenas um cálculo frio. — A equipe de Mendes já redigiu o relatório de negligência. Você é um estagiário, Lucas. Você matou sua carreira hoje.
Lucas ergueu o tablet, onde um protocolo de transferência de dados criptografados piscava em verde.
— O relatório de vocês? Já está em um servidor seguro, Beatriz. Incluindo as assinaturas falsificadas da dosagem. Se esse prontuário for alterado, o Ministério Público receberá a versão original antes que o sol nasça. A negligência não foi minha; foi a tentativa de encobri-la.
O Dr. Mendes, líder da equipe, empalideceu. A autoridade que ele exercera, baseada em crachás e títulos, evaporou. Roberto deu um passo à frente, a mão trêmula escondida no bolso do paletó de grife. Ele não podia humilhar Lucas; ele precisava que Lucas continuasse calado.
— Saia — ordenou Roberto, a voz rouca, desprovida do comando de costume. — Cuide para que ele não morra. O resto… discutiremos depois.
Lucas não esperou por um pedido de desculpas. Ele se afastou, deixando o patriarca engolindo o próprio desprezo. Minutos depois, no corredor isolado da ala VIP, Beatriz interceptou-o. Ela não o olhava mais como o primo descartável, mas como um ativo que precisava ser gerido.
— Você salvou o ativo, Lucas, mas declarou guerra à estrutura — disse ela, mantendo distância. — O grupo Viana já iniciou uma manobra hostil contra nossas ações. Eles sabem que o Roberto está incapacitado e que a diretoria está sangrando. Se você entregar essa prova para eles, a holding colapsa. Se você a mantiver, você se torna o dono do segredo.
Lucas parou, observando o reflexo dela no vidro da vitrine de equipamentos médicos.
— O que você quer, Beatriz?
— Uma aliança — ela respondeu, a voz desprovida de emoção. — Eu te dou acesso à estrutura interna da holding. Em troca, você garante que essa negligência seja enterrada e que o Roberto permaneça sob seu controle clínico até que a fusão se concretize.
Lucas virou-se, um sorriso gélido nos lábios.
— Você acha que pode me usar como seu peão contra o seu próprio pai?
— Eu acho que somos as duas únicas pessoas nesta sala que entendem o valor real da informação — ela retrucou.
Lucas aceitou o aperto de mão, mas sua mente já estava em outro lugar. Uma notificação urgente piscou em seu celular: um ataque coordenado aos servidores da família. Não era apenas o grupo Viana; havia uma traição interna, facilitada por alguém que conhecia os códigos de acesso que nem mesmo Roberto sabia que estavam sob risco. O jogo era maior. Enquanto mantinha o CFO vivo, Lucas percebeu que o verdadeiro inimigo estava oculto na escuridão daquela holding. Ele precisava decidir: salvaria o império de Roberto para colher os frutos, ou deixaria tudo colapsar para construir algo novo sobre as cinzas?