O Preço da Lealdade
O silêncio nos corredores da Viana Holdings não era de paz, mas de um vácuo. O ar-condicionado, outrora o zumbido constante da eficiência, parecia ter sido desligado, deixando o ambiente pesado com o cheiro de café frio e a eletricidade estática de um golpe de Estado mal digerido. Arthur Viana caminhava sobre o mármore polido, seus passos ecoando como disparos em uma galeria vazia. A cada porta que passava, os funcionários desviavam o olhar, fingindo concentração em telas que exibiam apenas o terror de serem os próximos a serem cortados.
Rocha, o Chefe da Segurança, aguardava em frente ao escritório principal. Seu rosto era uma máscara de lealdade mercenária, agora voltada para o novo sol. Ele não saudou Arthur com a reverência de outrora, mas com a cautela de quem avalia o peso de um novo mestre.
— O inventário dos ativos de Ricardo está disponível, Sr. Viana — disse Rocha, estendendo um tablet de metal escovado. — Mas os registros de movimentação dos últimos seis meses foram limpos. Alguém agiu antes que pudéssemos travar os servidores.
Arthur parou, a mão pairando sobre a maçaneta de carvalho maciço. Ele não olhou para o tablet. Seus olhos estavam fixos na placa de identificação que ainda ostentava o nome de seu pai.
— Limpos ou transferidos para uma estrutura externa, Rocha? — Arthur perguntou, a voz cortante.
— A trilha termina em um fundo internacional — Rocha baixou a voz, o tom carregado de um medo que ele raramente demonstrava. — Eles não apenas drenaram as contas. Eles removeram a soberania da empresa.
Arthur entrou no escritório de Ricardo, sentando-se na cadeira que, por décadas, fora o trono de uma dinastia de desdém. A vista de São Paulo, estendendo-se como um circuito de uma máquina que ele estava prestes a reprogramar, não lhe trazia triunfo, mas uma clareza fria. A queda de Ricardo não fora o fim; fora a abertura de uma ferida que sangrava para fora daquelas paredes.
Beatriz Lemos entrou sem bater, o som de seus saltos contra o mármore revelando a urgência. Ela não trazia apenas o relatório de auditoria solicitado; trazia a confirmação de que o labirinto de Ricardo era muito mais profundo do que uma simples má gestão familiar. Ela parou diante da mesa, depositando um tablet com a tela bloqueada sobre a superfície polida.
— A diretoria está em pânico, Arthur. Eles sabem que a falência técnica é real, mas temem mais o que vem de fora do que o que você pode fazer com eles — Beatriz começou, a voz firme, embora suas mãos, ao soltarem o dispositivo, revelassem um tremor imperceptível. — Analisei o fluxo de caixa dos últimos trinta e seis meses. O que parecia ser uma drenagem de capital familiar é, na verdade, um serviço de manutenção. A Viana Holdings não está falindo por má gestão; ela está sendo sangrada.
Arthur girou a cadeira.
— Por quem?
— Um fundo chamado Nexus — Beatriz respondeu, deslizando o tablet para o centro da mesa. — Eles não são investidores. São arquitetos de dívidas impagáveis. Ricardo não era o dono, Arthur. Ele era o zelador de um ativo que o Nexus já considerava deles. Eles não buscam dividendos. Eles buscam o controle total da infraestrutura que construímos.
Arthur sentiu o peso da revelação. A vitória sobre seu pai fora apenas o primeiro estágio, uma limpeza superficial de um sistema podre. O verdadeiro oponente, uma entidade global que tratava impérios como ativos descartáveis, acabara de se revelar. Ele olhou para a cláusula de veto de 2018 que repousava em sua gaveta. Aquela arma, que deveria salvar a Viana Holdings, parecia agora um estilingue contra um bombardeio.
— Eles sabem que Ricardo caiu — comentou Arthur, a voz baixa, quase desprovida de emoção. — E sabem que a segurança da empresa agora responde a mim. Se eles financiavam meu pai, eles não aceitarão a perda do controle com uma nota de rodapé contábil.
Beatriz deu um passo à frente, sua postura profissional dissolvendo-se em algo mais pessoal, uma aliança forjada no abismo.
— Eles já enviaram uma notificação de liquidação forçada, Arthur. Se você não assinar a reestruturação hoje, eles vão declarar a Viana Holdings tecnicamente insolvente na segunda-feira pela manhã. Eles não estão apenas vindo buscar a empresa. Eles estão vindo buscar a sua vida.
Arthur levantou-se, caminhando até a janela. A cidade lá fora parecia menor, mais contida. O jogo havia mudado de um conflito familiar para uma guerra de sobrevivência global. Ele sabia que o Nexus não pararia até que cada vestígio dos Viana fosse apagado. E, pela primeira vez desde que retornara, ele sentiu que a paciência estratégica não seria suficiente. Ele precisava de uma ofensiva que fizesse o Nexus tremer antes que eles pudessem disparar o golpe final.