Sombras no Tabuleiro
O escritório da presidência da Viana Holdings, antes o santuário de Ricardo, era agora uma sala de autópsia. Arthur Viana observava a luz fria do monitor principal, onde os gráficos de fluxo de caixa exibiam uma hemorragia financeira deliberada. O fundo Nexus Capital não operava na periferia; eles eram o parasita que havia perfurado a aorta da empresa.
Beatriz Lemos entrou sem bater. O som de seus saltos contra o mármore ecoava como tiros em um corredor deserto. Ela não trouxe o café habitual, mas um envelope lacrado com cera negra, um sinal de urgência que Arthur reconheceu antes mesmo de tocar o papel.
— Eles anteciparam a liquidação — disse Beatriz, a voz cortante, despida da diplomacia corporativa que costumava usar com os outros diretores. — O Nexus não quer esperar pela segunda-feira. Recebemos a notificação de insolvência técnica há dez minutos.
Arthur abriu o envelope. Além dos termos que selavam o destino da Viana Holdings, havia uma fotografia. Era seu carro, estacionado diante de seu apartamento particular naquela manhã, capturado por uma lente profissional de longo alcance. A mensagem, escrita à mão em uma caligrafia elegante e cruel, era direta: “O tabuleiro pertence a quem paga o preço do sangue, não apenas das ações. Abandone a presidência ou o próximo colapso será pessoal.”
Arthur sentiu o peso do papel, mas seus olhos não tremeram. Ele caminhou até o servidor central, onde os códigos de auditoria que Beatriz havia extraído revelavam a verdade final: Ricardo não era o mestre do jogo, mas um peão endividado. Anos atrás, o patriarca havia vendido patentes estratégicas e segredos industriais ao Nexus para cobrir perdas em cassinos clandestinos e investimentos fracassados.
— Ele não nos traiu por ganância, Beatriz — Arthur murmurou, os dedos deslizando pelo teclado enquanto ele sobrepunha uma holding fantasma à estrutura de dívida do Nexus. — Ele nos traiu por medo. Ele estava sendo devorado vivo por eles há anos.
— Se souberem que você descobriu a origem do Nexus, eles não vão apenas liquidar a empresa, Arthur — advertiu Beatriz, aproximando-se da tela. — Eles vão apagar qualquer vestígio de nós.
— Que tentem — respondeu ele, com uma calma que parecia afiar o ar ao seu redor.
O confronto aconteceu no lobby da empresa, vinte minutos depois. Ricardo Viana, o homem que um dia ditou o destino de cada acionista em São Paulo, tentava forçar a entrada pela porta giratória. Dois seguranças, agora sob ordens estritas de Arthur, bloqueavam o acesso.
— Saia da frente, seu idiota! — Ricardo vociferou, o rosto congestionado, a gravidade de sua posição pública desmoronando junto com sua compostura. — Eu sou o presidente deste conselho!
Arthur desceu as escadas com uma cadência calculada. Quando parou a poucos metros do pai, o contraste entre a postura relaxada do filho e o desespero visceral do patriarca era uma declaração de poder mais alta do que qualquer grito.
— Você era dono de uma fachada, pai — disse Arthur, a voz baixa e precisa, cortando o ruído do lobby como uma lâmina. — O Nexus Capital não é apenas um fundo. Eles são os seus credores, e agora, são os meus. Você foi descartado por quem realmente detém as chaves do cofre.
Ricardo parou de gritar. O medo, antes dissimulado pelo desprezo paternalista, tomou conta de seus olhos. Ele deu um passo atrás, os ombros caindo sob o peso da revelação. Ele sabia que Arthur não estava blefando.
De volta ao escritório, o silêncio era denso. Arthur observava a vista noturna da Avenida Paulista, os pontos de luz da cidade parecendo dados em um tabuleiro que ele finalmente começava a controlar. Ele já havia assinado a compra das ações do Nexus via holding fantasma, uma manobra que deixaria os investidores internacionais em pânico quando o mercado abrisse.
No entanto, ao se virar para sua mesa, encontrou um novo envelope. Desta vez, não continha papéis financeiros. Havia uma fotografia de sua casa na Serra da Mantiqueira, tirada de um ângulo que sugeria um invasor dentro de sua propriedade. Abaixo, uma única linha desenhada com a mesma tinta negra: “A próxima estrutura a colapsar não será de aço e vidro, Arthur. Será o seu legado de carne e osso.”
Arthur apertou o papel, o contrato de compra do Nexus esquecido sobre a mesa. A guerra corporativa havia acabado; a caçada havia começado.