O Preço da Ascensão
O zumbido dos servomotores do Mech era uma sinfonia de agonia contra os ossos de Kaelen. Dentro da cabine, o painel de diagnóstico piscava um alerta vermelho intermitente: Sobrecarga Térmica Crítica. Integridade Estrutural: 12%. A arena de provas ainda ecoava os murmúrios da elite, mas para Kaelen, o som era estática. Valerius havia caído, mas o custo daquela vitória latejava em seu peito, uma hemorragia interna que o selo de supressão de Mestra Elara mal conseguia conter.
— Você não ganhou por habilidade — a voz de Valerius sibilou, carregada de um desprezo que mal escondia o choque. Ele estava a poucos metros, os restos de seu próprio Mech fumegando. — Você trocou sua vida por um segundo de vantagem térmica. Acha que esse Ranking 42 vai durar quando a auditoria do sistema esmagar sua carcaça?
Kaelen forçou um sorriso, sentindo o gosto metálico de sangue. Ele se apoiou na carcaça do Mech, usando a pose de vencedor como uma máscara social. — O ranking é meu, Valerius. E o sistema ainda não me expulsou. É isso que te apavora, não é? A ideia de que alguém sem linhagem possa comprar seu lugar no topo?
Ele não esperou a resposta. Girou nos calcanhares, sentindo o mundo girar. Precisava chegar à oficina de Elara antes que os sensores de saúde da ala de elite detectassem a irregularidade em sua assinatura vital e marcassem sua conta com uma penalidade de 'inaptidão técnica'.
O cheiro de ozônio e metal queimado na oficina de Elara era um contraste gritante com a esterilidade polida dos corredores. Kaelen sentia cada nervo vibrar em um ritmo dissonante; a técnica de 'Conversão de Estresse Térmico' era um predador que devorava sua essência. Elara, de costas, manipulava um micro-soldador sobre uma placa de circuito.
— Você manipulou o registro de fluxo em 14% durante o duelo — disse ela, a voz fria como nitrogênio líquido. — O sistema de auditoria já marcou seu arquivo. Eles não veem uma vitória, Kaelen. Veem uma falha que precisa ser expurgada.
— O sistema punia a defesa — respondeu ele, mantendo o tom firme. — Eu apenas ajustei a variável para sobreviver. Se a Academia preza pela eficiência, eu entreguei o resultado.
Elara virou-se, os olhos estreitos avaliando o suor frio que escorria pelo rosto dele. — Você não é um agente de eficiência, é um agente de caos. E o sistema odeia o que não pode prever. Mas eu... eu preciso ver até onde esse seu caos pode chegar antes de implodir.
Ela deslizou uma chave de acesso sobre a mesa. — Vá ao mercado negro. O próximo ciclo de ranking vai exigir mais do que essa sua técnica instável. Use isso para acessar o leilão de componentes raros. Se você falhar lá, não precisará se preocupar com a auditoria; a dívida de 3.900 créditos já terá selado seu destino.
O subsolo do Mercado Negro era denso e úmido. Kaelen ajustou o colarinho, ocultando os tremores que subiam pelos antebraços. Ele precisava de um Estabilizador de Núcleo de Grau IV. Sem ele, a próxima prova seria sua ruína.
— Lote 42: Estabilizador experimental de alta carga. Lance inicial, 2.000 créditos — a voz do leiloeiro ecoou.
Kaelen sinalizou. O preço disparou. Quando atingiu 3.800, apenas ele e um estranho encapuzado, sentado na fileira oposta, restavam. O estranho não se movia, apenas observava, como se avaliasse o desespero no rosto de Kaelen. Com o último suspiro de sua conta de liquidez, Kaelen cobriu o lance: 3.900 créditos.
O martelo bateu. A vitória era sua, mas ao tocar no estabilizador, uma onda de choque percorreu seus meridianos. Sua visão escureceu. O corpo de Kaelen reagiu violentamente à técnica proibida, e o custo físico daquela ascensão provou ser muito mais letal do que a dívida financeira que ele acabara de zerar. Enquanto ele lutava para manter a consciência, percebeu que o estranho encapuzado não estava indo embora; ele se levantou, fixando o olhar no item que Kaelen acabara de arrebatar, como se o leilão real estivesse apenas começando.