Leilão de Honra
A dor nos meridianos de Kaelen não era apenas um sintoma; era uma métrica de falência. Na oficina clandestina, o ar cheirava a ozônio e isolamento queimado. Seus dedos tremiam ao alinhar os conectores do Estabilizador de Núcleo de Grau IV, um componente que custara o sangue de suas reservas e a dignidade de sua conta bancária. Cada segundo de precisão cirúrgica exigida ali parecia uma eternidade; o sistema da Academia, uma rede onipresente de sensores e auditorias, varria o setor com uma eficiência impiedosa.
O Mech, um modelo de treinamento modificado, soltou um chiado metálico fétido. A carcaça estava em colapso, carbonizada pelo uso excessivo da técnica de Conversão de Estresse Térmico. O estabilizador era a última barreira entre ele e uma explosão de energia que não apenas destruiria a máquina, mas revelaria a assinatura térmica de seu cultivo ilegal. Uma notificação no terminal piscou em um âmbar agressivo: Auditoria de Diagnóstico em 12%. Ele não tinha mais margem. Se a auditoria o pegasse agora, o despejo seria a menor de suas preocupações; ele seria marcado como ativo defeituoso e descartado.
Kaelen guardou a chave de torque, sentindo um espasmo percorrer sua espinha. Ele precisava de mais do que apenas estabilidade; ele precisava de um módulo de resfriamento para aguentar o próximo ciclo de ranking. Com o corpo em frangalhos, ele se arrastou para o Mercado de Leilões da Academia, onde o ar era denso, carregado com o cheiro de lubrificante aquecido e a umidade de corpos nervosos sob pressão.
No palco central, o Módulo de Resfriamento Criogênico, Grau A, brilhava sob a luz estéril. Era a peça que faltava.
— Dez mil créditos — anunciou Valerius, sua voz ecoando com a soberba de quem via o mercado como um playground. Ele não precisava do módulo; ele queria apenas garantir que Kaelen fosse despejado por falha técnica.
Kaelen sentiu o suor frio escorrer pelo pescoço. Sua conta, já negativa em 3.900 créditos, piscou em vermelho. O sistema de dívidas da Academia era um predador faminto. Ele ativou sua técnica proibida, forçando o fluxo de energia residual para processar os dados do leilão em tempo real, ignorando a pontada aguda em seu peito. Ele não tinha créditos, mas tinha dados táticos de sua luta contra Valerius — registros de falhas no Mech do prodígio que valiam fortunas para qualquer analista de combate.
— Doze mil créditos, mais os registros de telemetria do duelo de ontem — Kaelen disparou, a voz rouca, mas firme. O silêncio caiu sobre o salão. Valerius empalideceu ao perceber que Kaelen estava vendendo a humilhação do herdeiro para a própria Academia.
O leiloeiro hesitou, depois bateu o martelo. A peça era dele, mas Kaelen sentiu o vazio absoluto em seu saldo e em seu corpo. Ele mal teve tempo de respirar antes que uma sombra se movesse na periferia. Um estranho encapuzado, que não pertencia aos quadros da Academia, observava cada movimento seu com uma intensidade predatória. Kaelen percebeu, com um calafrio, que a escada que ele subia não era um caminho para o sucesso, mas uma isca para uma facção externa que monitorava talentos como quem avalia gado para o abate.
Ao sair do leilão, Mestra Elara o esperava nos corredores, a silhueta gélida contra a luz dos terminais.
— Você comprou o tempo que precisava, Kaelen, mas agora você é um ativo de alto valor — ela disse, a voz desprovida de calor. — A auditoria que você teme não é para expulsar os inaptos. É uma vitrine. Eles estão comprando o seu futuro, e você acabou de assinar o contrato.
Kaelen olhou para o ranking na parede. Seu nome subia, mas a pressão em sua nuca aumentava. Ele agora possuía o módulo e o estabilizador, mas o jogo tinha mudado de escala. O leilão de componentes de elite começou, e ele viu, através das lentes de um observador externo, que o próximo item de sua lista estava sendo disputado por alguém que ele nunca viu — alguém que não jogava pelas regras da Academia.