Alavancagem de Risco
O vapor sibilava nas juntas do chassi do meu Mech, um lamento metálico que denunciava o esforço sobre-humano da simulação de combate real. Saí da cabine, sentindo o gosto de cobre e ozônio na garganta. O Hangar de Elite estava imerso em uma penumbra fria, mas os monitores de status, flutuando em hologramas rubros ao meu redor, gritavam a realidade: minha dívida havia saltado para 3.900 créditos. O sistema da Academia não perdoava a instabilidade térmica; cada segundo de manobra proibida era cobrado com juros punitivos. A ordem de confiscação do meu Mech já estava na fila, disparada automaticamente pelo monitoramento de risco. Se o sistema identificasse a assinatura do núcleo proibido, eu seria expulso antes do amanhecer.
— Vamos, seu maldito — sibilou Kaelen. Em vez de pagar a dívida, forcei uma sobrecarga no sistema de refrigeração auxiliar. O objetivo não era o resfriamento, mas a distorção. Redirecionei o fluxo de energia para criar um campo de interferência magnética, mascarando a assinatura térmica do núcleo ilegal. O painel piscou freneticamente, processando o fluxo de dados corrompidos. O alarme de 'Dívida Crítica' travou, substituído pelo aviso de 'Manutenção Necessária'. Ganhei tempo, mas a margem de erro era nula.
Na área de convivência, precisei de liquidez imediata.
— Vinte créditos por uma leitura precisa do seu padrão de ataque — ofereci a um recruta trêmulo. — O simulador pune hesitação, não força bruta.
Antes que o novato transferisse, uma mão enluvada golpeou o terminal holográfico. Valerius surgiu, seus olhos estreitos como lâminas.
— Não deem ouvidos a esse lixo — escarneceu. — Ele é um viciado em dívidas. Pagar por dicas de um pária é o caminho mais rápido para a expulsão.
Não recuei. Meus dedos deslizaram pelo comunicador, projetando o ranking global na parede.
— Engraçado, Valerius. O sistema diz que você perdeu quarenta pontos ontem por 'arrogância tática'. Quer que todos vejam o replay da sua derrota humilhante contra o robô de nível um?
O silêncio no refeitório tornou-se cortante. Valerius empalideceu enquanto o holograma do seu erro crasso flutuava sobre a mesa. O conhecimento era a única moeda que não perdia valor. Garanti o capital, mas o olhar dos monitores da Academia sobre mim tornou-se opressor.
Na oficina, Mestra Elara me aguardava. O cheiro de ozônio impregnava o local. Desci do cockpit, as pernas cedendo.
— Você está forçando a estrutura além do limite térmico — Elara cortou o ar, sem desviar os olhos dos monitores de diagnóstico. — O sistema já marcou sua conta para auditoria especial.
O núcleo de estabilização pulsava com uma luz violácea irregular.
— O sistema de extração da Academia não foi feito para recrutas como eu sobreviverem — retruquei, limpando o sangue do nariz. — Ele foi feito para nos descartar.
Elara suspirou, entregando-me um selo de supressão.
— Isto vai mascarar a assinatura, mas o custo físico será cobrado de seus meridianos. Se usar isso de novo sem cautela, seus nervos vão colapsar.
Na arena, o duelo final do ciclo começou. Valerius avançava com um equipamento de elite, forçando-me ao limite. A técnica de Conversão de Estresse Térmico estava ativa, transformando a instabilidade em força bruta, mas cada movimento era uma agulhada lancinante em minha espinha. O visor piscava: -3.900 créditos. Precisava vencer. Canalizei toda a energia proibida, sobrecarregando o Mech de Valerius em uma manobra suicida. O impacto ecoou, o Mech de Valerius travou, e desabei com o sistema entrando em colapso.
Enquanto a consciência se esvaía, senti a presença de Elara ao meu lado. Ela sussurrou, a voz carregada de um aviso gélido:
— Eles sabem que você está manipulando o sistema. Pare agora, ou será apagado.
Meu corpo reagiu à técnica; o custo físico era, enfim, maior do que a dívida financeira.