Simulação de Combate
O Cálice de Ferro vibrava com uma frequência errática, um tremor metálico que subia pelos pedais e se alojava nos dentes de Kaelen. Dentro da cabine, o ar cheirava a ozônio queimado e ao suor frio de quem não tem margem para erro. O monitor de diagnóstico piscava em um vermelho agressivo: ANOMALIA TÉRMICA: NÚCLEO NÃO RECONHECIDO. Atrás da blindagem torácica, o estabilizador de fluxo — a peça proibida que consumira seus últimos créditos — pulsava como um coração alienígena, tentando conter a fúria da técnica de Conversão de Estresse Térmico.
Se a auditoria da Academia detectasse a natureza daquele componente, a expulsão seria o menor dos seus problemas. A dívida de 3.850 créditos seria transferida para sua família, uma sentença de servidão hereditária. Kaelen não podia se dar ao luxo de falhar.
— Segure o tranco, sua lata velha — sibilou, os dedos calejados travados nos controles hápticos.
Ele ativou a técnica. O sistema de segurança da Academia, programado para detectar instabilidades, disparou um alarme estridente. Kaelen não lutou contra o alerta; ele o usou como combustível. Canalizou a energia excedente do núcleo proibido para as bobinas de resfriamento. O metal do Mech gemeu, estalando sob a pressão, mas a assinatura térmica, antes um farol de ilegalidade, contorceu-se e mimetizou o padrão de um reator padrão de baixa eficiência. O erro crítico no monitor sumiu. A simulação de combate real começou.
O ambiente era um labirinto industrial de torres de processamento e poços de ventilação. À sua esquerda, um Mech leve, ostentando as cores da linhagem Valerius, foi imobilizado por um enxame de drones. O sistema de suporte do rapaz entrou em colapso, emitindo um sinal de alerta público. Kaelen observou a cena pelo HUD. Ignorar o colega significava chegar ao núcleo da simulação em trinta segundos, garantindo pontos de ranking. Mas a Academia punia a ineficiência com a mesma frieza que punia a falha.
— Kaelen, o alvo está vulnerável. Desvie ou perca a janela de pontuação — a voz de Mestra Elara cortou o canal de comunicação, vinda do centro de comando.
Kaelen não respondeu. Ele viu a oportunidade: não era heroísmo, era alavancagem. Mergulhou em direção ao enxame, ativando a Conversão de Estresse Térmico. O calor proibido fluiu para seus circuitos enquanto ele hackeava o fluxo de dados dos drones, drenando a energia do sistema para compensar seu próprio consumo. O Mech do rival foi liberado, mas a dívida de Kaelen saltou para 3.900 créditos devido ao "uso indevido de recursos de rede".
Ele não parou. Ao atingir o Núcleo de Processamento, Kaelen percebeu a verdade: a simulação era um mecanismo de extração financeira. Ele injetou um script de sobrecarga controlada, forçando o sistema a processar a energia gasta como um "reembolso" de performance. O sistema de segurança, sentindo a intrusão, tentou expulsá-lo por comportamento errático. Kaelen forçou a máquina ao limite, sentindo o metal ceder, mas o saldo de créditos começou a subir. Uma vitória pírrica, mas que o marcava como uma ameaça direta à integridade dos dados da Academia.
Ao sair da simulação, o vapor sibilava pelas vedações do cockpit. A pontuação no painel brilhava em âmbar: Ranking 42. Tier de Elite. Mestra Elara o aguardava nas sombras do hangar, sua presença tão gélida quanto o metal ao redor. Ela se aproximou, o brilho das luzes de manutenção refletindo em seu uniforme impecável.
— O registro de fluxo térmico estava instável na marca dos quatro minutos — a voz dela era um bisturi. — Você não apenas manipulou os dados de consumo. Você injetou uma variável que o sistema nem deveria reconhecer.
Kaelen travou o mecanismo de ejeção, forçando uma postura relaxada. A simulação de combate real havia terminado, mas a verdadeira prova apenas começava. Ele não estava mais enfrentando alunos, mas o sistema inteiro da Academia.
Elara inclinou-se, o sussurro carregado de uma ameaça que não deixava margem para dúvidas: — Eles sabem que você está manipulando o sistema. Pare agora, ou será apagado.