A Convergência do Núcleo
O ar no cubículo de Kaelen estava saturado com o cheiro metálico de ozônio e o suor frio de quem vive por um fio. Ele cravou os dedos na madeira lascada da mesa, sentindo a vibração instável do núcleo de classe A ressoar contra seus próprios meridianos. A energia não era apenas poder; era uma dívida que ele estava forçando a Academia a pagar. Com um esforço deliberado, ele canalizou a técnica proibida, forçando o núcleo a se fundir com seu centro de cultivo. A dor foi imediata, uma agulha de gelo perfurando sua resistência, mas o ganho era inegável: sua assinatura energética, antes errática, começou a se estabilizar em uma frequência mais densa, mais eficiente.
Ele não tinha tempo para a euforia. O cronômetro em seu pulso, conectado à rede da Academia, marcava quarenta e oito horas para a auditoria de linhagem — o momento em que sua conta seria zerada ou sua existência, confiscada. Kaelen olhou para o amuleto de obsidiana sobre a mesa. As marcas entalhadas brilhavam com um fulgor pálido, revelando o mapa das fraquezas estruturais dos dutos de energia do setor administrativo. Cada linha de luz era uma rota de fuga, uma prova de que a elite, embora intocável em sua soberba, construíra seu império sobre alicerces podres.
De repente, uma sombra projetou-se na porta. Kaelen nem precisou se virar para sentir a autoridade gélida de Mestra Elara. Ela entrou sem ser convidada, o olhar varrendo as manchas de fuligem nas mãos dele.
— Você cheira a minério bruto e desespero, Kaelen — disse ela, a voz cortante. — O protocolo de isolamento do setor de minas foi acionado. A segurança rastreou um pico de energia que não deveria existir para alguém do seu nível. Se Vane encontrar o que você está escondendo, não haverá auditoria, apenas uma execução sumária.
— Eu estava apenas cumprindo minha cota, Mestra — Kaelen respondeu, mantendo a voz estável enquanto o amuleto sob sua túnica pulsava, um aviso silencioso de que a rede estava fechando.
Elara soltou uma risada seca. Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele. — A Academia é uma farsa, um sistema desenhado para moer talentos como você e transformar o pó em luxo para os herdeiros. Você não precisa de permissão para subir; precisa de invisibilidade. Se quer sobreviver ao duelo de amanhã contra Valerius, pare de agir como uma presa e comece a tratar esse sistema como o mercado de apostas que ele realmente é.
Ela partiu, deixando Kaelen com a certeza de que estava sendo monitorado por alguém que conhecia o sistema por dentro. Mal a porta se fechou, o sistema de segurança do corredor emitiu um sinal agudo. Não era o zumbido rotineiro dos drones de limpeza. Era a frequência baixa e ressonante de um scanner de alta sensibilidade.
Kaelen sentiu o núcleo de classe A, agora integrado, tentar romper as barreiras de sua pele. Ele apertou o amuleto de obsidiana, criando uma sombra energética que camuflava sua assinatura, mas o custo era brutal: a drenagem de sua vitalidade era instantânea. Um estrondo metálico ecoou no corredor. O impacto pesado de uma bota de inspeção fez o estrado de ferro ranger.
— Kaelen! Saia imediatamente — a voz do Inspetor Vane era seca, destituída de qualquer humanidade. — Auditoria de resíduos energéticos autorizada pelo comando. Abra a porta ou seremos forçados a abrir o cubículo e você com ele.
O coração de Kaelen deu um solavanco. Ele olhou para o amuleto. Se ele o soltasse agora para esconder o núcleo, seria descoberto. Se mantivesse a camuflagem, seu corpo colapsaria sob a carga. Ele se levantou, a energia fervendo em suas veias, e encarou a porta de metal. A única saída agora não era o esconderijo, era o confronto.