Resíduos como Arma
O cheiro de ozônio e metal queimado era o perfume da minha ruína. No fundo do Depósito de Resíduos da Academia, cercado por pilhas de circuitos de rank-E descartados, eu segurava um núcleo de mana rachado. A fratura, uma cicatriz profunda na gema, deveria torná-lo lixo. Para mim, era a única porta aberta. Fechei os olhos, ignorando a umidade fria das paredes de pedra, e ativei a técnica banida.
O fluxo de energia, antes uma corrente estagnada em minhas veias, começou a vibrar de forma faminta. A técnica não pedia permissão; ela forçava a ressonância entre meu núcleo e a fratura do artefato. Uma dor aguda, como agulhas de gelo sendo cravadas em meu peito, me fez cerrar os dentes até quase quebrá-los. O núcleo na minha mão começou a brilhar com um azul doentio. A energia bruta, instável e carregada de impurezas, drenava para dentro de mim. Senti o ganho: não era um refinamento suave, era um preenchimento brutal. Meu fluxo de mana, travado há meses, deu um solavanco, rompendo uma barreira invisível. O calor subiu, e meus sentidos se expandiram. Eu era mais forte do que há dez minutos, mas o ar ao redor estalou com a sobrecarga.
O estalo do metal contra a madeira da bancada ecoou na oficina apertada. Antes que eu pudesse estabilizar o fluxo, a porta foi arrombada. Vane, um patrulheiro de ranking médio, entrou com a armadura de couro reforçado rangendo. Seus olhos percorreram o ambiente até pousarem no jade em minha mão.
— Irregularidade energética detectada. Isso é contrabando de núcleo, Kaelen. Multa de trinta pedras espirituais ou sua licença de cultivo é revogada hoje — Vane sorriu, um gesto predatório. — Você não tem o valor, tem? Talvez possamos negociar com o que resta da sua dignidade.
Senti o pulso de poder recém-adquirido latejar. Em vez de recuar, canalizei a energia. O jade em minha palma drenou-se em uma torrente purificada. A pressão atmosférica na sala caiu drasticamente. Vane, acostumado à minha submissão, hesitou quando a aura densa emanou de mim. Ele deu um passo atrás, a mão descendo para o cabo da lâmina, os olhos arregalados pela mudança súbita no meu nível de cultivo.
— O que você fez? — ele sibilou, mas não avançou. Ele recuou, jurando vingança com um olhar, tornando-se uma sombra que vigiaria cada passo meu.
Minutos depois, no Pátio de Treinamento, a tensão era palpável. Eu ainda sentia o núcleo vibrando, uma pulsação instável. Valerius, o herdeiro de linhagem pura, aproximou-se com seus lacaios. Ele parou a poucos centímetros, analisando minha postura.
— Ouvi dizer que seu núcleo deu um salto estranho. Desespero antes da auditoria? — Valerius estendeu uma bolsa de créditos, o tilintar das moedas soando como uma sentença. — Aceite isso. Perca o duelo de amanhã e você terá o suficiente para desaparecer antes que a dívida da sua família consuma sua linhagem.
— O ranking vale mais que o seu suborno, Valerius — respondi, recusando a bolsa.
Ele riu, um som gélido, e se afastou, mas a aposta estava feita. A vitória no duelo valia o triplo em pontos de ranking, o único caminho para evitar o confisco. No entanto, ao caminhar para o Setor de Párias, o zumbido eletrônico em meu bolso tornou-se um alerta ensurdecedor. O rastreador de energia da Academia, uma rede de sensores invisíveis, estava respondendo à minha assinatura anômala. A luz âmbar em meu pulso piscou violentamente para um vermelho de emergência. A segurança estava a caminho. Alguém tinha visto, e o cerco estava fechado.