O Custo do Último Lugar
O ar na Praça de Auditoria do Pináculo de Cristal tinha o cheiro metálico de ozônio e o peso opressor de mil olhos avaliadores. Kaelen manteve a coluna reta, embora o suor frio escorresse por sua espinha, traindo o controle que tentava projetar. Diante dele, o Painel de Fluxo — um monólito de obsidiana e runas pulsantes — brilhava com um tom azulado pálido. A luz não era apenas uma leitura; era um veredito.
"Kaelen, Rank 498. Fluxo de energia: 0.12 unidades por ciclo," anunciou o instrutor, a voz desprovida de qualquer traço de empatia. Ele nem sequer levantou os olhos do registro digital. "Ineficiência crítica detectada. Sua linhagem é um desperdício de espaço nesta Academia."
Um riso abafado ecoou entre os estudantes de elite. Valerius, parado a poucos metros com o uniforme impecável bordado em fios de ouro, deu um passo à frente, cruzando os braços com uma arrogância calculada. Ele era o Rank 1, o espelho onde Kaelen via apenas suas próprias cicatrizes e dívidas.
"Deixe-o, instrutor," disse Valerius, com um sorriso que não chegava aos olhos. "Kaelen não cultiva; ele apenas consome o ar que os talentosos respiram. Talvez o confisco da linhagem na próxima auditoria finalmente limpe o estoque desta instituição."
Kaelen sentiu o sangue ferver, mas forçou-se a respirar com calma, focando na dor aguda no peito — o preço de sua última tentativa desesperada de absorver energia de um núcleo de baixa qualidade. O sistema de ranking da Academia não perdoava a ineficiência. Sem subir de posição, o confisco de linhagem não era apenas uma ameaça; era uma matemática inevitável.
Horas depois, o silêncio do Depósito de Resíduos da Academia era o único conforto. Aqui, a elite descartava o que não era mais eficiente — núcleos de mana trincados, runas de dispersão e artefatos que, para eles, eram apenas lixo. Para Kaelen, era o único lugar onde a escassez não era uma sentença, mas um inventário.
Seus dedos roçaram um fragmento de um cristal de canalização, banido pela Academia por sua natureza instável. Era proibido, perigoso e, exatamente por isso, barato o suficiente. O dispositivo de rastreamento em seu pulso, um bracelete de cobre frio, emitiu um zumbido baixo. O sistema sabia que ele estava ali, mas, enquanto ele não excedesse o consumo médio, ele era invisível.
Kaelen conectou seu núcleo ao fragmento. A técnica, uma manobra de drenagem proibida que ele memorizara de um registro esquecido, começou a pulsar. O artefato não apenas oferecia energia; ele forçava a ineficiência do metal quebrado a ser convertida em uma corrente bruta e caótica. A dor foi imediata, uma agulhada de fogo que subiu pelo seu braço, mas, ao abrir os olhos, o painel de energia em seu pulso saltou de 0.12 para 0.45. O ganho era real. Era mensurável.
Ele retornou ao seu alojamento — uma cela de concreto bruto no setor de resíduos — e encostou as costas na madeira lascada, tentando estabilizar o fluxo em seu núcleo. A técnica que acabara de roubar do lixo industrial ainda queimava em suas veias, uma vibração dissonante que parecia devorar a estagnação de seu corpo. Ele não era mais o mesmo; o acúmulo de energia inútil havia sido consumido.
De repente, seu dispositivo de pulso vibrou com uma intensidade que fez seus dentes doerem. Kaelen ergueu o braço. Uma luz vermelha pulsava no visor, acompanhada pelo som mecânico e impiedoso da notificação oficial: STATUS: INAPTO. AUDITORIA DE RANKING: FALHA CRÍTICA. PRAZO PARA RECLASSIFICAÇÃO OU DESLIGAMENTO COMPULSÓRIO: 72 HORAS.
As palavras flutuavam no ar como uma sentença de morte. A dívida de sua família, um peso que ele carregava desde que pisara na Academia, parecia agora uma corda apertando seu pescoço. Ele olhou pela fresta da janela e viu a silhueta de Mestra Elara no pátio, observando seu alojamento com um cinismo calculado. Ela sabia.
O rastreador de energia da academia apitou violentamente, uma nota alta e estridente que atravessou as paredes de concreto. Alguém viu o pico de energia ilegal e estava vindo conferir. Kaelen tinha 72 horas, mas a caçada começava agora.