A Primeira Prova de Fogo
A porta da sala privativa fechou-se com um clique abafado, isolando a orquestra e o burburinho da elite paulistana. Beatriz sentiu o ar rarefeito. O contrato, assinado há poucos minutos, parecia queimar sob suas luvas de seda. Rafael não perdeu tempo com gentilezas. Ele caminhou até a mesa de mogno, serviu-se de um uísque e observou o reflexo de Beatriz no espelho embutido na parede. O brilho do lustre distorcia a imagem dela, transformando seu vestido sóbrio em uma armadura de vidro prestes a estilhaçar.
— Você tem exatamente até o amanhecer para se acostumar com a ideia de ser vista ao meu lado — disse ele, a voz desprovida de qualquer calor. — O conselho administrativo não aceita incertezas. Se a sua discrição habitual for interpretada como frieza, o acordo será anulado. E você sabe o que acontece se o fundo de Otávio retomar a dívida antes da hora.
Beatriz endireitou a coluna. O medo era um luxo que ela não podia ostentar. Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele. O cheiro de cedro e o custo daquela proximidade forçada a atingiram como um soco.
— Eu não preciso de lições de atuação, Rafael. Eu sobrevivi ao seu abandono anos atrás sem um único sussurro público. Manter uma fachada é a única coisa em que me tornei especialista.
Rafael pousou o copo com força, o cristal vibrando contra a madeira. Antes que ele pudesse replicar, um homem de terno impecável, um dos subalternos de Otávio, surgiu na entrada sem pedir licença. Ele estendeu um envelope pardo com uma reverência ensaiada.
— O senhor Otávio deseja que a senhorita revise os termos antes do amanhecer — ele murmurou, a voz cortante. — Ele diz que a certidão de nascimento é uma peça de ficção fascinante, mas que a ausência de um pai torna a história muito... vulnerável.
Beatriz sentiu o sangue fugir de seu rosto. O dossiê continha a prova de que seu filho existia sem o respaldo de um nome influente. Se Otávio levasse aquilo a público, sua vida em São Paulo terminaria. Ela estendeu a mão, mas Rafael foi mais rápido. Ele interceptou o movimento, retirando o envelope das mãos do assistente com uma calma letal.
— Meu noivado com Beatriz torna qualquer pendência financeira do senhor Otávio irrelevante — Rafael disse, a voz baixa, mas audível o suficiente para atrair olhares de curiosos no corredor. — Diga ao seu mestre que, se ele tocar no nome dela, o fundo de investimento dele não será apenas auditado; será desmantelado.
O assistente recuou, pálido, enquanto Rafael rasgava o envelope sem ler, jogando o conteúdo na lixeira. Ele não perguntou o que havia ali; ele apenas exigiu que Beatriz voltasse ao salão. A proteção dele tinha um tom possessivo que a deixava sem fôlego.
No salão principal, Letícia, uma socialite cujo interesse em Rafael era tão óbvio quanto sua crueldade, aproximou-se com um sorriso que não alcançava os olhos.
— Rafael, querido — disse ela, a voz carregada de um veneno melífluo. — Todos estamos curiosos sobre o seu noivado súbito. Beatriz é uma consultora excelente, claro, mas ouvi dizer que certas contas dela não param de bater na porta. É uma união por amor ou por caridade financeira?
Beatriz sentiu o sangue gelar. Rafael não permitiu que o silêncio se prolongasse. Ele apertou a cintura de Beatriz com firmeza, um movimento que forçou a atenção de todos os presentes. Ele não olhou para a ex-amante; seus olhos estavam fixos em um grupo de investidores que observava a cena.
— O contrato de fornecimento com a sua holding, Letícia, acaba de ser cancelado — Rafael anunciou, a voz ecoando pelo salão. — Não tolero que ninguém, sob nenhuma circunstância, questione a integridade da minha noiva. A perda de receita para a sua família é o preço da sua impertinência.
O silêncio que caiu sobre o salão foi absoluto. A elite paulistana observava, chocada, enquanto Rafael sacrificava um negócio de milhões apenas para calar um boato. Beatriz sentiu o peso do olhar de todos, mas, pela primeira vez, o noivado não parecia apenas um contrato; era uma arma.
Já no carro, voltando para o apartamento, o silêncio era denso. Rafael mantinha os olhos fixos na estrada, os nós dos dedos brancos sobre o volante. Ao esticar a mão para pegar sua bolsa, um movimento brusco do sedã fez o porta-luvas destrancar. Um arquivo, entreaberto, deslizou para fora. Beatriz não pretendia olhar, mas o nome estampado no topo do documento – Fundo de Liquidação Patrimonial: Caso 402 – paralisou seus dedos. Eram os registros das heranças desaparecidas que Rafael investigava. Ela percebeu, com um calafrio, que ele não a protegia apenas como um escudo; ele estava sendo vigiado, assim como ela. A proteção dele era uma faca de dois gumes, e o próximo passo seria a revelação da verdade.