O Arquivo da Discórdia
A cobertura de Rafael em Higienópolis não era um lar; era um observatório de vidro frio, suspenso sobre o trânsito estagnado de São Paulo. Beatriz entrou, o som de seus saltos contra o mármore ecoando como um aviso. O silêncio ali era denso, uma camada de isolamento que ela detestava, pois a impedia de ouvir o perigo se aproximando.
Rafael trancou a porta. O estalo da fechadura eletrônica foi definitivo. Ele soltou o nó da gravata, o rosto uma máscara de exaustão calculada.
— O conselho administrativo vai digerir o escândalo da Letícia assim que a imprensa validar nosso noivado amanhã — disse ele, caminhando até o bar. — A partir das oito, você é a mulher que salvou minha reputação. Tente não parecer uma prisioneira.
Beatriz não se aproximou. Seus olhos percorreram a sala, buscando falhas na segurança. A dívida com o fundo de Otávio venceria ao amanhecer; a cada minuto sob aquele teto, ela sentia a corda apertar.
— Você não me trouxe aqui para discutir a imprensa, Rafael. Sua rede de vigilância está ativa demais para quem só quer apaziguar investidores. O que você está escondendo?
Ele serviu um uísque, ignorando o convite para a transparência.
— Privacidade é um luxo que nenhum de nós pode pagar, Beatriz. O que eu faço para manter esse teto de pé não é da sua conta, desde que o contrato seja cumprido.
Quando ele se retirou para o escritório envidraçado para uma chamada de vídeo, Beatriz viu a brecha. Sobre a mesa de mogno, a pasta de couro que ele carregara durante toda a noite estava entreaberta. O 'Caso 402'. O nome a perseguia desde a gala. Se aquela investigação tocasse a rede de proteção que ela montara para seu filho, ela não teria apenas um credor como Otávio, mas o próprio Rafael como algoz.
Ela se aproximou, o coração martelando contra as costelas. Seus dedos, treinados na discrição, abriram a trava. Lá dentro, entre contratos corporativos, estava um dossiê com bordas amareladas. Ao folhear as páginas, o sangue de Beatriz gelou. O arquivo detalhava pagamentos vultosos para contas offshore, destinados a ocultar identidades de beneficiários menores de idade. O nome de um dos beneficiários era o pseudônimo que ela usara anos atrás.
O som da porta sendo destravada foi um disparo. Beatriz girou, mas Rafael já estava ali, bloqueando a saída. Ele não parecia surpreso; parecia impaciente.
— Você tem o péssimo hábito de procurar o que não lhe pertence — a voz dele era um sussurro perigoso.
Ele invadiu seu espaço, forçando-a contra a mesa. Beatriz não recuou, embora a proximidade fosse uma arma apontada para sua dignidade.
— Por que você está rastreando pagamentos que deveriam estar enterrados? — ela desafiou, segurando a pasta contra o peito como um escudo.
Rafael retirou o dossiê de suas mãos com uma lentidão deliberada. Seus dedos roçaram os dela, um contato que enviou um choque térmico por sua pele. Ele a encurralou, a sombra de seu corpo projetando uma dominação que a fez perder o fôlego.
— Estou rastreando fantasmas, Beatriz. E descobri que alguém muito próximo a mim está sendo vigiado pelos mesmos abutres que cercam você. Eles não querem apenas o meu dinheiro. Eles querem o que eu tenho de mais valioso.
Beatriz sentiu o peso da verdade. A proteção dele não era cortesia; era uma necessidade de sobrevivência mútua em um ninho de cobras. Mais tarde, na sala de estar, ela encarou o extrato bancário que confirmava a quitação de sua dívida com Otávio, processada às quatro da manhã.
— Por que você fez isso? — ela perguntou, a voz firme, apesar da trepidação interna. — Isso não estava no contrato.
Rafael virou-se, os olhos escuros revelando uma determinação que a assustou.
— O contrato exigia que você fosse minha noiva, não que fosse marionete de agiotas. Você é minha, Beatriz. E eu não permito riscos.
Ela sentiu o nó na garganta. Ele a salvara, mas ao custo de sua autonomia.
— Por que você está limpando minhas dívidas? Isso não estava no acordo.