A Farsa sob Holofotes
O ar na sala de reuniões privada, nos fundos da Fundação Viana, era rarefeito, carregado com o cheiro de mogno e a frieza calculada de Ricardo Xavier. Elena mantinha a coluna ereta, a seda do vestido funcionando como uma armadura que, pela primeira vez, parecia prestes a ceder. Ricardo deslizou uma pasta de couro sobre a mesa. O gesto era preciso, desprovido de qualquer calor humano.
— Alberto não vai esperar até o fim da noite — disse ele, a voz grave soando como uma sentença. — Se você não assinar, o dossiê sobre sua vida privada será o destaque da coluna social amanhã. Você sabe que o mercado de luxo paulistano não perdoa escândalos de maternidade não declarada.
Elena encarou o papel. O contrato de noivado. Uma farsa construída para blindar a reputação dele perante os acionistas e, por puro cálculo, a dela da ruína total. Ela sentiu o estômago revirar. Ricardo não a estava salvando; ele a estava comprando, transformando sua necessidade desesperada em uma peça de xadrez em seu jogo corporativo.
— Você já sabia — ela afirmou, a voz firme apesar da tempestade interna. — A dívida, a chantagem de Alberto... você não apareceu no salão por acaso. Você me encurralou antes mesmo de eu chegar.
Ricardo inclinou a cabeça, um sorriso frio brincando em seus lábios. Ele não negou. A ausência de uma desculpa era a prova de que sua proteção era sempre condicionada. Sem alternativas, Elena assinou. O contrato estava selado.
De volta ao salão, o ambiente era uma vitrine de predadores. Ao seu lado, Ricardo não era apenas um homem; era uma força gravitacional que a mantinha presa àquela órbita insuportável.
— Sorria, Elena. O seu desespero é a única coisa que não podemos nos dar ao luxo de exibir esta noite — Ricardo sussurrou, a voz destilando um controle que a irritava tanto quanto a sua onipresença.
Alberto aproximou-se com um sorriso predatório.
— Ricardo, que surpresa. Elena, sempre tão… discreta. Ouvi dizer que suas finanças andam tão frágeis quanto sua carreira de assessora — Alberto comentou, deixando a insinuação pairar entre as taças de cristal como um veneno lento.
Ricardo não vacilou. Ele envolveu a cintura de Elena, puxando-a para um contato que enviou uma descarga elétrica de perigo por sua espinha.
— As finanças da minha noiva são assunto meu a partir de agora, Alberto. E, se a sua preocupação com o mercado for tão aguda quanto a sua curiosidade pela vida alheia, sugiro que foque na queda das suas próprias ações — Ricardo disparou, a agressividade inesperada desarmando o rival. O custo político daquela defesa foi claro: Ricardo acabara de declarar guerra aberta a um aliado de seus acionistas, tudo para manter a fachada de seu ativo mais precioso.
Enquanto dançavam, Elena percebeu que Ricardo não estava apenas focado nela. Seus olhos varriam o ambiente. Perto de um pilar de mármore, um homem de terno cinza operava um dispositivo de gravação. Não era um convidado. Era um investigador, e o alvo era Ricardo. Elena, usando sua experiência em gestão de eventos, fingiu um desequilíbrio, colidindo com uma bandeja de garçons e criando uma distração ruidosa de taças quebradas que forçou o investigador a se mover, perdendo o ângulo da foto comprometedora.
Ricardo a segurou firme, percebendo a manobra. O olhar que ele lançou a ela não era de gratidão, mas de uma obsessão renovada por sua inteligência estratégica.
O evento chegou ao ápice na entrada principal. A imprensa cercou o casal sob uma chuva de flashes. O ar no saguão era eletrizante. Elena sentia a mão de Ricardo em suas costas, uma pressão firme que não oferecia conforto, apenas controle absoluto.
— Lembre-se — Ricardo sussurrou, a voz roçando a curva de seu ouvido, fria como o mármore sob seus pés. — Cada flash é uma assinatura. Se você hesitar, o contrato perde o valor. E você sabe exatamente o que acontece se o valor cair.
O flash das câmeras cega Elena enquanto Ricardo aperta sua cintura, sussurrando: 'Sorria. Eles estão observando cada detalhe da nossa mentira.'