O Preço da Lealdade
O escritório de Lucas, no trigésimo andar da torre Montenegro, era uma caixa de vidro blindado que oferecia uma vista panorâmica de São Paulo. Beatriz não se sentou. Ela permaneceu diante da mesa de mogno, o peso das provas que descobrira — papéis amarelados de uma auditoria forjada há cinco anos — vibrando entre eles como uma acusação silenciosa.
— Você foi enganado, Lucas — a voz dela era gélida, destituída da hesitação que ele costumava explorar. — Cinco anos de silêncio, de humilhação e de sobrevivência, tudo baseado em documentos que qualquer estagiário saberia que eram falsos. Por que você não olhou com atenção antes de me destruir?
Lucas não se moveu. Ele observava Beatriz com uma intensidade que beirava a dor. O magnata que sempre controlava cada variável do mercado parecia subitamente ancorado pelo peso do próprio erro.
— Eu não olhei porque não podia — Lucas respondeu, a voz rouca, quase um sussurro. — Naquela época, a traição de alguém em quem eu confiava cegamente me cegou. Eu recebi fotos, registros bancários, depoimentos. Eu queria tanto acreditar que você era real que a dor de ver o contrário me impediu de investigar. A raiva foi minha única bússola.
Beatriz sentiu o sangue gelar. Ele admitia a falha, mas a proteção que ele exercia agora, o fideicomisso que prendia o futuro de Leo às suas mãos, não parecia menos uma prisão do que o abandono anterior. Ela não era apenas uma noiva falsa; ela era uma peça em um tabuleiro que ele ainda se recusava a deixar ela controlar.
Mais tarde, no salão de baile do Hotel Imperial, o ar estava denso, carregado pelo perfume caro e pelo peso dos olhares da elite. Sob os lustres de cristal, Beatriz mantinha a postura impecável, embora seus dedos apertassem a taça de champanhe com força suficiente para deixar as juntas brancas.
— Você parece tensa, Beatriz. Ou será apenas o peso de carregar tantos segredos em um vestido tão justo? — A voz de Marcelo Viana, rival de longa data de Lucas, cortou a conversa. Ele sorriu, um gesto calculado. — Todos se perguntam como uma empresa à beira da falência conseguiu um resgate tão… oportuno. Seria caridade ou um pagamento por serviços que nem todos conhecemos?
Lucas, que mantinha uma mão firme na base das costas de Beatriz, endureceu. O toque, antes protetor, tornou-se uma âncora de tensão elétrica.
— Marcelo, sua presença aqui é tão indesejada quanto seus comentários — retrucou Lucas, a voz baixa e perigosa.
— Apenas curioso, Montenegro. Dizem que você está perdendo o foco. Ouvi dizer que o negócio da zona sul foi cancelado porque você estava ocupado demais brincando de noivo.
Sem hesitar, Lucas deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Viana.
— Eu não perdi o negócio, Marcelo. Eu o cancelei porque não aceito sócios que mancham a reputação das pessoas que eu protejo. E, a partir de hoje, qualquer um que questione o status da minha noiva está fora da minha mesa de decisões.
O silêncio no salão foi absoluto. Lucas acabara de sacrificar milhões em capital político e financeiro por uma questão de honra que, para todos os presentes, parecia uma loucura obsessiva. Beatriz sentiu o peso daquela compensação emocional. Ele não estava apenas jogando um jogo; ele estava queimando pontes para garantir que ela não tivesse para onde ir — exceto para ele.
De volta à mansão, o silêncio era opressor. Lucas ignorava o telefone, que vibrava sem parar com as consequências do escândalo no baile.
— Você perdeu o negócio por mim — disse Beatriz, a voz desprovida de doçura. — Não finja que foi um erro estratégico.
Lucas virou-se, o copo de cristal na mão. O brilho calculista de seu rosto dera lugar a uma fadiga crua.
— O valor daquele contrato é irrelevante perto da humilhação que Viana tentou te impor. Eu passei cinco anos acreditando em mentiras. A ideia de que alguém usou a minha raiva para te destruir... isso não é algo que eu possa simplesmente ignorar com uma planilha de lucros.
Beatriz subiu as escadas, sentindo que a barreira entre eles estava cedendo, mas o perigo apenas aumentava. Ao passar pelo quarto de hóspedes, a porta entreaberta revelou uma luz amarelada. Lucas estava lá, inclinado sobre uma mesa lateral, suas mãos grandes manuseando a caixa de recordações que ela acreditava estar oculta para sempre. Fotografias, recibos médicos e a carta de identificação de Leo estavam espalhados sobre a superfície.
— Você não tinha o direito — a voz de Beatriz saiu firme, apesar do pânico.
Lucas virou-se lentamente. Seus olhos carregavam uma urgência violenta.
— Eu descobri que fui manipulado há cinco anos, Beatriz — ele começou, segurando a pulseira de identificação hospitalar de Leo. — Mas agora eu sei o que você escondeu. E, desta vez, não vou deixar você fugir da verdade.