Fogo Cruzado
O ar no escritório de Beatriz parecia ter sido substituído por mercúrio. Lucas não se moveu. Seus dedos, longos e precisos, permaneciam sobre a fotografia de Leo que ela, em um lapso de exaustão, deixara sobre a mesa. O silêncio não era de paz; era a calmaria que precede o colapso de uma estrutura mal fundamentada.
— As datas não batem com o seu exílio, Beatriz — a voz dele era um baixo contido, desprovida da agressividade que ela esperava, o que a tornava mil vezes mais perigosa. — E a semelhança... não é uma coincidência que o dinheiro possa apagar.
Beatriz sentiu o estômago revirar, mas endireitou a coluna. A dignidade era sua única armadura. Ela avançou, tentando alcançar o retrato, mas Lucas a interceptou, bloqueando o acesso à prova de sua vida paralela com a autoridade de quem já possuía o terreno.
— Leo é um assunto privado. O nosso contrato dizia respeito à minha empresa, não à minha linhagem — ela disparou, a voz firme apesar da adrenalina martelando em suas têmporas. — Se você veio aqui para usar o fideicomisso como arma de chantagem, saiba que prefiro a falência à sua interferência na criação dele.
Lucas soltou uma risada seca, sem humor. Ele caminhou até a pasta de registros que ela tentara falsificar. Com um movimento deliberado, abriu-a, revelando as inconsistências que ele já mapeara. Ele não a atacou; ele a encurralou com a verdade, forçando-a a encarar que o jogo de sombras havia acabado.
Horas depois, o restaurante no centro financeiro era um aquário de vidro e aço, onde cada movimento era observado por predadores. Beatriz ajustou o anel de noivado — um diamante que pesava como uma algema — e forçou um sorriso para os investidores. Ricardo, um dos sócios mais hostis, inclinou-se sobre a mesa.
— O noivado é uma jogada de marketing brilhante, Montenegro — disparou Ricardo. — Mas todos sabemos que a empresa da Beatriz está em queda livre. Por que um homem como você jogaria dinheiro no lixo?
Beatriz sentiu o sangue gelar, mas Lucas foi mais rápido. A temperatura na mesa pareceu cair dez graus.
— O seu erro, Ricardo, é medir valor pelo balancete de um trimestre — Lucas inclinou-se, o tom de voz letal. — O meu investimento não é na empresa. É no ativo mais valioso que você sequer tem capacidade de compreender. Se a sua preocupação com o meu capital continuar a ser tão invasiva, garanto que a liquidação da sua própria firma será o próximo tópico na minha agenda.
O rival empalideceu, recuando. Beatriz observava Lucas, atônita. Ele não estava apenas protegendo o contrato; ele estava queimando pontes para garantir que ninguém questionasse o valor dela, ou o dele.
De volta ao apartamento, Beatriz encontrou um envelope pardo esquecido por Lucas sobre o mármore frio. Suas mãos tremiam ao tocar o papel. Ao abrir, o primeiro documento a cair foi uma carta antiga, assinada pelo ex-sócio de Lucas. “As provas de infidelidade estão anexadas, conforme solicitado. O contrato de exclusividade de Beatriz será rescindido assim que a exposição pública for confirmada.”
O ar pareceu rarefeito. Ela folheou as páginas: fotografias forjadas, e-mails manipulados com datas alteradas. O abandono de cinco anos não fora uma escolha fria de Lucas; fora uma armadilha, uma orquestração de terceiros que ela, em sua mágoa, nunca questionara.
A porta se abriu. Lucas entrou, encontrando-a com as cartas na mão. A máscara de magnata calculista rachou, revelando um cansaço brutal. Ele não tentou negar. Ele jogou um maço de papéis sobre a mesa, documentos que Beatriz reconheceu como registros de transações de sua própria família.
— Você acha que eu fugi, Beatriz? — Lucas perguntou, a voz carregada de uma amargura que a atingiu como um golpe. — Eu fui manipulado. Eles forjaram provas de que você estava envolvida em uma fraude contra a nossa própria sociedade. Eu escolhi o silêncio porque achei que estava protegendo você da prisão, sem saber que estava apenas abrindo caminho para que eles tomassem tudo. E agora, as mesmas pessoas que nos separaram estão de volta, vigiando cada passo nosso. Leo não está em perigo por minha causa, Beatriz. Ele está em perigo porque eles sabem que ele é o único herdeiro que pode derrubar o império que eles construíram sobre a nossa ruína.