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Chapter 2: O Contrato de Vidro

Beatriz assina o contrato de noivado falso após Lucas revelar que mapeou sua vida privada, incluindo a existência de seu filho. Lucas a protege de uma humilhação pública por um ex-sócio, estabelecendo sua nova posição como 'tutora' de Beatriz. O capítulo termina com a assinatura do contrato e uma faísca física intensa entre ambos.

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O Contrato de Vidro

O escritório de Lucas Montenegro no Hotel Majestic não era um ambiente de trabalho; era uma fortaleza de vidro e mogno, projetada para reduzir o interlocutor a uma variável em seus cálculos de poder. Beatriz sentiu o impacto do silêncio ao cruzar a porta. À sua frente, Lucas estava parado diante da janela panorâmica, a silhueta recortada contra as luzes de São Paulo que ele, ironicamente, ajudava a desmantelar.

— A liquidação da sua empresa começa às oito da manhã — Lucas disse, sem se virar. O tom era desprovido de hesitação, uma sentença proferida com a frieza de quem domina o mercado. — O contrato está sobre a mesa. É uma saída digna, Beatriz. Ou, pelo menos, é a única que lhe resta.

Beatriz caminhou até a mesa. O documento, encadernado em couro, parecia pesar toneladas. Ao abrir as páginas, seus olhos não buscaram as cifras, mas as entrelinhas. O choque veio como um soco no estômago: Lucas não apenas comprara suas dívidas bancárias; ele havia mapeado cada movimento financeiro seu nos últimos seis meses. Ali estavam o valor da mensalidade da escola de Leo, o plano de saúde, o aluguel do apartamento que ela mantinha em sigilo. O segredo que ela guardara por anos, a existência de seu filho, estava exposto em planilhas frias e extratos bancários.

— Você me vigiou — a voz dela saiu baixa, cortante, carregada de uma raiva que fez Lucas finalmente se virar. Seus olhos, escuros e impenetráveis, mediram a reação dela.

— Eu protegi meu investimento, Beatriz. E garanto que, se você assinar, ninguém mais verá esses documentos.

Beatriz manteve a coluna ereta, forçando a dignidade que a falência tentava drenar de seus ossos.

— A cláusula sobre a minha vida privada é vaga — ela disparou, apontando para o papel. — Eu exijo que a existência de Leo seja blindada. Nenhuma menção, nenhum registro, nenhuma aproximação. Se a imprensa tocar no nome dele, o acordo termina no mesmo segundo. Se você quer uma noiva de fachada para o seu império, terá isso. Mas meu filho não é parte do seu inventário.

Lucas observou-a com uma intensidade predatória. Ele não era mais o jovem imprudente de anos atrás; havia uma precisão calculada em sua imobilidade. Ele se inclinou sobre a mesa, o relógio de pulso que usara no baile — uma peça clássica, cara, inesquecível — cruzando a superfície do contrato.

— Você protege esse garoto como se o mundo inteiro fosse um inimigo. O que exatamente você teme que eu descubra? — Ele fez uma pausa, o silêncio entre eles carregado de eletricidade estática. — Aceito suas condições de privacidade, mas o noivado exigirá aparições públicas constantes. Você será vista comigo, Beatriz. Você será minha face pública em cada evento, cada leilão, cada gala. Esse é o custo da sua liberdade financeira.

Beatriz sentiu o peso da armadilha que ela mesma ajudava a construir. Ela traçou uma linha com a caneta sobre a cláusula de confidencialidade, selando o destino de ambos.

Ao saírem do escritório para o saguão do hotel, a realidade do contrato os atingiu. O mármore parecia frio demais sob os saltos de Beatriz. Antes que pudessem alcançar a saída, uma sombra se interpôs entre eles. Era Roberto, um ex-sócio cuja empresa ruíra meses antes da dela, com um sorriso ácido no rosto.

— Beatriz? Que surpresa infeliz — ele disse, os olhos varrendo o traje impecável dela com desdém. — Ouvi dizer que o leilão dos seus ativos acontece amanhã. Veio pedir um empréstimo de última hora? Ou está apenas tentando vender o resto da sua dignidade para algum magnata desesperado?

Beatriz sentiu o sangue fugir de seu rosto, mas antes que pudesse responder, Lucas deu um passo à frente. Sua presença ocupou todo o espaço, uma muralha de autoridade absoluta. Ele não gritou; sua voz foi um murmúrio perigoso, audível apenas o suficiente para os que estavam por perto.

— Roberto, sua insolvência parece ter afetado também sua etiqueta — Lucas disse, a mão pousando, possessiva e firme, na base da coluna de Beatriz. O toque era um aviso. — A empresa de Beatriz não será leiloada. Ela está sob a minha tutela, assim como ela estará em breve sob o meu sobrenome. Se eu ouvir mais uma palavra ofensiva contra minha noiva, garanto que você não encontrará nem um metro quadrado de escritório em toda a cidade para continuar seu negócio medíocre.

Roberto empalideceu, recuando diante do olhar de Lucas. A humilhação que Beatriz esperava foi substituída por uma proteção que a deixou atordoada. Lucas não a defendera apenas; ele a reivindicara perante o mercado, transformando sua falência em um status de poder.

De volta à suíte presidencial, o ar parecia rarefeito. O silêncio era interrompido apenas pelo tique-taque do relógio de Lucas. Beatriz caminhou até a mesa para finalizar a assinatura. A adrenalina da humilhação evitada ainda corria em suas veias, misturando-se a uma tensão sexual que ela se recusava a nomear.

Ela pegou a caneta, as mãos firmes apesar do tremor interno. Ao assinar, Lucas se inclinou para verificar os termos, seu corpo próximo demais, o perfume amadeirado invadindo seu espaço pessoal. Quando ele estendeu a mão para retirar o contrato, seus dedos roçaram a pele de Beatriz. O choque térmico foi instantâneo, uma faísca que percorreu o braço dela e parou direto no peito. Beatriz retirou a mão como se tivesse se queimado, o coração martelando contra as costelas. Lucas não se afastou; ele a observou, o olhar pousado na assinatura com uma satisfação sombria que sugeria que o jogo, longe de terminar, estava apenas começando.

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