Sombras no Salão
O espelho da suíte presidencial da Montenegro Imobiliária devolvia uma imagem que Beatriz mal reconhecia. O vestido, um carmesim de corte impecável, não era apenas moda; era o uniforme de sua rendição. Atrás dela, Lucas Montenegro observava o reflexo com a mesma intensidade cirúrgica com que analisava um balancete. Ele ajeitou o próprio paletó, o movimento preciso, quase predatório.
— Lembre-se, Beatriz — a voz dele cortou o silêncio como uma lâmina — a partir do momento em que cruzarmos aquelas portas, você não é mais a dona de uma empresa à beira da falência. Você é a mulher que eu escolhi para ostentar. O mundo não precisa saber que sua dignidade foi o preço do resgate.
Beatriz virou-se, sentindo o peso da aliança de diamantes. Era uma algema fria e inegável. Ela encontrou o olhar dele, recusando-se a piscar.
— Eu sei exatamente o que sou para você, Lucas. Mas espero que a sua parte do acordo seja tão precisa quanto a minha. Leo não pode ser mencionado. Se o nome dele surgir em qualquer conversa ou arquivo, o contrato acaba.
Lucas deu um passo à frente, fechando o espaço até que o perfume amadeirado dele invadisse seu campo de visão. Ele não a tocou, mas a proximidade era uma forma de assédio tático. Ele ajustou uma mecha de cabelo dela, a ponta dos dedos roçando sua pele com uma frieza calculada que fazia o sangue dela ferver de indignação e algo mais perigoso.
No salão de baile, o brilho dos candelabros parecia dissecar cada um de seus movimentos. A mão de Lucas na base das costas dela não era afeto; era um carimbo de propriedade. Quando o conselho da construtora, liderado por César Valente, aproximou-se com sorrisos predatórios, o ar ficou denso.
— Montenegro, uma surpresa vê-los aqui — disse Valente, os olhos fixos em Beatriz. — Soubemos que a situação da sua… protegida… é crítica. O leilão ainda está em pauta, ou você pretende jogar dinheiro fora para manter um capricho pessoal?
Beatriz sentiu o estômago revirar. O leilão era a forca que a esperava à meia-noite. Mas, antes que pudesse responder, Lucas interveio. Ele não apenas a defendeu; ele a posicionou como uma extensão de sua própria autoridade, usando o peso de sua fortuna para humilhar Valente sem elevar a voz. Beatriz percebeu, com um calafrio, que ele não a protegia por bondade, mas para garantir que seu 'investimento' não perdesse valor de mercado.
Sob o pretexto de buscar uma bebida, Beatriz escapou para o escritório privativo adjacente. O silêncio do cômodo era uma antítese cruel ao barulho lá fora. Sobre a mesa, uma pasta de couro com o selo da Montenegro repousava, aberta. Ela não pretendia olhar, mas o nome de sua empresa, riscado em vermelho, a imobilizou. Ao folhear as páginas, a verdade a atingiu com a força de um soco: o dinheiro que Lucas injetara não era um empréstimo corporativo. Era uma herança vinculada a um fideicomisso que deveria ter sido dividido, incluindo uma cláusula de paternidade que, por algum erro ou intenção sombria, citava o nome de seu filho, Leo.
O pânico veio como um gelo absoluto. Lucas não estava apenas a comprando; ele estava consolidando um patrimônio que, legalmente, envolvia o futuro da criança que ele jurara não ver. O segredo era a chave que mantinha o contrato de noivado vivo. Ela ouviu passos no corredor e, no pânico, a pasta deslizou, uma folha solta caindo no carpete.
Beatriz saiu do escritório, mas parou ao ver um segurança recolher o documento. O homem parecia reconhecer o selo. Ela não hesitou. Fechou a distância em três passos, a autoridade de quem não tinha nada a perder emanando de seu porte.
— Esse documento pertence ao meu noivo, e seu manuseio indevido é uma questão de responsabilidade civil — ela disse, a voz cortante. O segurança, intimidado pelo olhar de aço, entregou o envelope.
Beatriz retornou ao salão, o coração martelando contra as costelas. Ela se aproximou de Lucas, que observava a multidão com uma expressão de triunfo. Ao olhar para o celular dele, que repousava sobre uma mesa, ela viu, por um segundo, uma foto de Leo. A expressão de Lucas não era de um magnata calculista; era de um homem que começava a reconhecer, em cada traço daquela criança, o rosto de sua própria linhagem perdida.