Dívida de Honra
O corredor privativo do hotel, revestido em boiseries de mogno e mármore frio, parecia estreitar-se à medida que Ricardo se aproximava. O som de seus passos, um eco metálico contra o luxo silencioso do ambiente, era a única trilha sonora de uma emboscada que Beatriz não podia se dar ao luxo de perder. Ela sentiu o peso da pasta de auditoria sob o braço, uma carga que pesava mais do que qualquer vestido de alta costura, pois continha não apenas números, mas a ruína de seu mentor e a sobrevivência de Arthur.
— Você parece tensa, Beatriz. Ou seria o medo de que o castelo de cartas desmorone antes da sobremesa? — Ricardo parou a poucos centímetros, o hálito com cheiro de uísque caro e a expressão carregada de um desprezo que ela já conhecera bem demais. — Eu sei o que você é. Uma substituta. Uma farsa que Arthur Valente usa para validar um contrato que nem deveria existir. — Ele baixou o tom, um sussurro predatório. — Entregue a pasta. É a única forma de sair desta noite com sua reputação intacta.
Beatriz manteve o queixo erguido. O pavor que tentava subir por sua garganta foi contido pela disciplina de anos de humilhação social; ela já tinha perdido tudo, e o que restava — sua dignidade — era a única moeda que ele não podia confiscar.
— A farsa é a sua única narrativa, Ricardo — respondeu ela, a voz firme, cortante como o cristal. — Você fugiu com os ativos da minha família esperando que eu me tornasse a vítima silenciosa. Errou o cálculo. O que Arthur e eu temos é uma fusão de interesses, e a sua presença aqui só prova que você está desesperado. Se você tocar em mim, ou tentar expor o contrato, saberá exatamente o que acontece quando alguém tenta jogar xadrez com quem conhece todas as peças do tabuleiro.
Ricardo recuou um passo, os olhos estreitando-se. Ele hesitou, e nesse breve momento de dúvida, Beatriz soube que havia vencido o primeiro round. Ele não queria uma guerra aberta; ele queria o espólio.
— A assembleia é amanhã, Beatriz. Sem a pasta, você é apenas uma noiva decorativa. Com ela, você é um alvo. Pense bem antes de proteger quem nunca se importou com você — ele sibilou antes de se retirar pelas sombras do corredor.
Beatriz não esperou. Ela retornou ao salão de baile, onde o ar parecia denso, carregado com o perfume caro e a hipocrisia da elite paulistana. O salão de baile do Hotel Unique não era mais um palco de humilhação, mas uma arena de guerra silenciosa. Ela ajustou o colar de diamantes, sentindo o peso frio da joia contra a pele aquecida pela adrenalina. Ao seu lado, Arthur Valente mantinha a postura de estátua, o olhar varrendo o recinto com a precisão de um predador. A tensão em seu ombro esquerdo — onde o impacto do atentado ainda latejava — denunciava a fragilidade de sua fachada.
O pai de Arthur, um homem cujos olhos possuíam o mesmo cinza gélido e implacável do filho, aproximou-se com um séquito de conselheiros que cheiravam a desespero e oportunismo.
— Arthur, a assembleia aguarda — o mais velho iniciou, ignorando Beatriz com uma elegância calculada. — A legitimidade desta união está sob questionamento. O mercado não tolera incertezas, e a sua noiva... bem, digamos que a linhagem dela é uma variável que não conseguimos precificar.
Beatriz sentiu o estômago revirar, não pelo insulto, mas pela clareza da armadilha. O pai de Arthur não queria apenas o casamento; ele queria a liquidação total da holding de Beatriz.
— A precificação não é o seu forte, senhor Valente — Beatriz interrompeu, a voz firme, cortando o burburinho dos convidados. Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do sogro. — Como sócia estratégica da subsidiária que o Arthur me confiou, eu já bloqueei as manobras que o seu consórcio tentou implementar esta manhã. Se o senhor quer questionar a minha linhagem, sugiro que primeiro verifique quem detém o controle acionário real da operação que o senhor chama de 'incerta'.
O silêncio que caiu sobre o grupo foi absoluto. Arthur virou-se para ela, os olhos escuros brilhando com uma mistura de choque e algo mais profundo — um reconhecimento que fez o coração de Beatriz disparar.
Mais tarde, na suíte presidencial, a porta mal se fechou e Arthur a encurralou contra o painel de madeira. O cheiro de sândalo e o calor do corpo dele eram uma distração perigosa, mas Beatriz não recuou.
— O que você estava pensando? — A voz dele era um rosnado contido. — Você se tornou um alvo móvel.
Beatriz puxou um envelope pardo de dentro do blazer e o jogou sobre a mesa de mogno. — A bagunça não é minha, é sua herança — ela retrucou. — Aqui estão as assinaturas forjadas do Ricardo. É a prova que você precisa para paralisar o conselho amanhã.
Arthur hesitou, olhando para o envelope. Ele sabia que, ao aceitar aquele atalho, Beatriz estava se expondo ao perigo final. Ela havia escolhido a luta, e agora, o destino de ambos estava selado na mesma página.