A Farsa se Sustenta
O saguão do hotel, antes um templo de luxo e celebração, transformara-se em uma zona de guerra controlada. O brilho dos flashes, antes um elogio, agora soava como disparos de artilharia. Beatriz sentia o tecido pesado do vestido de noiva como uma armadura que começava a ceder sob a pressão de dezenas de microfones estendidos em sua direção.
— Sr. Valente! É verdade que a noiva original foi substituída por uma herdeira em falência iminente? A fusão é apenas um golpe para salvar o patrimônio de Beatriz? — A pergunta, desferida por um jornalista de tabloide, cortou o ar climatizado com a precisão de um bisturi.
Beatriz sentiu o maxilar travar, mas não recuou. Ao seu lado, a mão de Arthur, espalmada firmemente contra a base de suas costas, era uma âncora de aço. Ele não a empurrou para a frente; ele a protegeu, criando uma barreira física entre ela e a voracidade da imprensa.
— Falhas de comunicação são comuns em fusões desta magnitude — a voz de Arthur era fria, desprovida de qualquer emoção que não fosse a autoridade absoluta. Ele deu um passo à frente, assumindo o ângulo de disparo das câmeras. — A responsabilidade pela logística desastrosa da cerimônia de hoje foi minha. Subestimei a complexidade do protocolo familiar da família de Beatriz. Não houve substituição, houve apenas uma correção de rota necessária para garantir o sucesso do nosso compromisso.
Beatriz observou-o, o choque percorrendo sua espinha. Arthur estava se expondo ao ridículo público, assumindo a culpa por uma falha corporativa que, em seu mundo de perfeição calculada, era quase uma sentença de incompetência. Ele estava comprando a paz dela com sua própria reputação.
Minutos depois, refugiados em uma sala privada, o silêncio era tão denso quanto o cheiro de couro envelhecido do escritório. Beatriz jogou a pasta de auditoria sobre a mesa de mogno com um estrondo.
— O mentor da minha família não é apenas um traidor, Arthur. Ele é o arquiteto do consórcio que está tentando destruir a holding — disparou ela, sem dar-lhe chance de controlar o ritmo. — Você sabia disso quando me forçou a assinar aquele contrato. Você sabia que ele estava infiltrado.
Arthur, que observava a cena com uma imobilidade predatória, deu um passo à frente. Seus olhos escuros faiscavam com uma intensidade que ela não conseguia decifrar.
— Eu precisava de alguém dentro daquela estrutura, Beatriz. Alguém que tivesse o direito legal de auditar os ativos que ele tentou esconder. Você não era apenas uma substituta; você era a única chave para o cofre.
— Então deixe de me tratar como uma peça de xadrez — ela retrucou, a voz firme. — Eu tenho o controle acionário da subsidiária. Se você quer essa fusão, vai ter que me aceitar como sócia estratégica, não como um adereço no altar.
Arthur a encarou por um longo momento, o respeito relutante surgindo no fundo de seu olhar. Antes que pudesse responder, o ambiente foi interrompido. Ao sair para o corredor, Beatriz deu de cara com Ricardo. Ele não usava o terno impecável do noivado; parecia um homem que vinha dormindo em quartos de hotel baratos, com os olhos injetados de uma urgência febril.
— Você não deveria estar aqui, Beatriz — ele sibilou, bloqueando sua passagem. — Esqueça a polícia. O mentor sabe que você tem os documentos. Se você não me entregar essa pasta agora, a farsa do seu casamento com Valente termina antes mesmo da assembleia. Eu tenho provas de que vocês não se casaram por amor, mas por desespero corporativo.
Beatriz sentiu o sangue pulsar nas têmporas. A ameaça era real, física e imediata. Ela percebeu, com uma clareza cortante, que Ricardo era apenas um peão desesperado, mas o perigo que ele representava poderia implodir tudo o que Arthur e ela estavam construindo. Ela não entregaria a pasta. Ela a usaria para destruir quem estava por trás dele, mesmo que isso significasse caminhar diretamente para o fogo.