Estratégia de Defesa
O ar-condicionado do salão de baile do Hotel Unique era um luxo inútil contra a voltagem daquela noite. Beatriz ajustou o decote do vestido de seda, sentindo o peso da mão de Arthur Valente na base de sua espinha. Para os convidados, era um gesto de posse romântica; para ela, era a âncora que a impedia de colapsar sob o peso do escândalo que, horas antes, a deixara abandonada no altar.
— Sorria — murmurou Arthur, a voz baixa, carregada de uma autoridade gélida que não admitia falhas. — O mentor da sua família está logo ali, perto da coluna de mármore. Se ele notar que você está tremendo, a fachada cai antes mesmo de servirem o primeiro champanhe.
Beatriz endureceu a coluna. O homem a quem ela confiara os segredos financeiros de sua linhagem, aquele que a guiara desde a infância, agora conversava com um dos acionistas de Arthur com uma naturalidade que a fez querer vomitar. A traição não era apenas um desfalque; era um mapa detalhado da ruína de sua família, entregue de bandeja aos inimigos.
— Ele não vai ver nada — respondeu ela, a voz firme, embora a pulsação em seu pescoço denunciasse a adrenalina.
Eles caminharam pelo salão, um casal de fachada forjado em urgência. Arthur a conduziu com precisão cirúrgica até um grupo de investidores, posicionando-a como um escudo. Quando um rival de Arthur tentou lançar uma farpa venenosa sobre o abandono de Ricardo, Arthur não permitiu que ela respondesse. Ele a puxou para mais perto, a mão subindo para a curva de seu ombro, um toque deliberado e possessivo que silenciou o comentário com a força de um aviso. Beatriz percebeu, naquele instante, que a proteção de Arthur não era gentileza; era uma forma de compensação estratégica. Ela era a propriedade dele agora, e ele não permitia que ninguém mais a marcasse.
Mais tarde, aproveitando uma distração estratégica, Beatriz escapou para o escritório particular de Arthur no hotel. O ambiente cheirava a couro envelhecido e tabaco, um santuário de segredos. Seus dedos, trêmulos, pairaram sobre o teclado do computador. A senha, baseada na data da fusão que salvara a Valente Holdings, foi um palpite certeiro. O monitor brilhou, revelando uma pasta intitulada 'Auditoria Interna'.
O que ela encontrou ali fez o chão desaparecer sob seus pés. E-mails criptografados provavam que seu mentor não apenas facilitara a fuga de Ricardo, mas fornecera as chaves de acesso para que ele drenasse, sistematicamente, cada ativo da holding de sua família. O objetivo final era a aquisição hostil da empresa por um consórcio de fachada, com o mentor à frente. Beatriz sentiu o ar faltar. A traição era absoluta, cirúrgica, e vinha de quem ela chamava de família.
O som de passos firmes no corredor interrompeu seu exame. Antes que ela pudesse esconder os documentos, a porta se abriu com um impacto seco. Arthur entrou, o paletó descartado, as mangas da camisa dobradas até os cotovelos, revelando veias saltadas. Seus olhos cinzentos travaram nos dela, carregados de uma intensidade que não admitia mentiras.
— Você não deveria estar aqui — a voz dele era um murmúrio desprovido de calor.
— E você não deveria me manter no escuro enquanto o homem que me ensinou tudo está arquitetando a ruína da minha família — retrucou Beatriz, segurando a pasta contra o peito.
Arthur avançou, fechando o espaço entre eles. Antes que ele pudesse responder, um vulto atravessou a varanda de vidro. O som de vidro estilhaçando ecoou pelo escritório. Arthur, com reflexos sobre-humanos, a empurrou para o chão, cobrindo seu corpo com o dele enquanto o primeiro disparo silenciado atingia a estante de mogno. O perigo não era mais uma metáfora corporativa; era real, físico, e estava dentro do hotel.
Enquanto ele a mantinha pressionada contra o carpete, protegendo-a com seu próprio corpo, Beatriz olhou para a pasta de couro que ainda segurava. Entre os papéis amassados, viu o brasão da fundação que seu mentor presidia, selando o documento de transferência de ativos. A prova estava ali. O traidor não era apenas um inimigo de Arthur; era o homem que ela chamara de mestre.
No silêncio que se seguiu ao ataque, enquanto Arthur se levantava para enfrentar os intrusos, Beatriz o observou de longe. A possessividade dele, que ela julgava ser apenas controle corporativo, revelou-se algo muito mais profundo: uma necessidade incontrolável de mantê-la viva, custasse o que custasse. A dinâmica havia mudado; ela não era mais apenas uma noiva substituída, mas a única detentora da verdade que poderia destruir o império de seu mentor — e, talvez, a única que Arthur realmente temia perder.