Ascensão Forçada
O cronômetro no visor do Sucata não era apenas um contador de tempo; era uma lâmina encostada na garganta de Kael. Doze horas. O prazo para a liquidação de seus bens e a execução de Jairo pulsava em um vermelho clínico, refletindo-se nas íris de Kael enquanto ele observava os técnicos da Academia. Eles não estavam consertando o frame; estavam o castrando.
Valéria observava de uma passarela superior, os braços cruzados, a postura impecável contrastando com a fuligem que manchava o macacão de Kael.
— Quarenta por cento de carga, Kael — ela anunciou, a voz cortando o barulho de metal rangendo no hangar. — O núcleo de energia foi selado. Qualquer tentativa de sobrecarga resultará em um bloqueio permanente de ignição. A Academia não tolera anomalias em sua final.
Kael não respondeu. Ele sentia o peso do mapa de Jairo, um chip de silício antigo escondido sob a blindagem reativa que ele mesmo instalara. O mapa não era apenas um esquema; era a planta do sistema nervoso da Torre. Enquanto os técnicos apertavam os limitadores, Kael tocou a carcaça fria do frame. O Sucata vibrou, um pulso fraco, mas desafiador. Ele não precisava de cem por cento de carga se soubesse exatamente onde a Torre era vulnerável.
Na Arena de Provas, a atmosfera era de um funeral para o azarão. As luzes neon da elite acadêmica ofuscavam os níveis baixos. Quando o sinal de largada ecoou, os Vanguards-IV da Academia deslizaram como predadores de luxo. O Sucata, contudo, parecia um bloco de chumbo. Valéria, operando o painel de controle da arena, fechou as paredes do setor central, forçando Kael para um corredor de alta voltagem.
— Ele está acabado — alguém na arquibancada murmurou.
Kael ignorou o aviso de sobrecarga que piscava em seu visor. Ele não seguiu o corredor. Em vez disso, ele acionou os propulsores laterais, forçando o Sucata a girar em um ângulo impossível. O frame rugiu, o metal da era antiga protestando contra a pressão, enquanto ele mergulhava em um duto de ventilação ancestral que o mapa de Jairo revelara. O duto era estreito, claustrofóbico, mas era o caminho para a vitória. Ele emergiu na linha de chegada segundos antes dos Vanguards, o choque da multidão silenciando o estádio.
O triunfo foi interrompido por um edital da Academia: qualquer frame com peças de "origem incerta" seria confiscado. Era o golpe final. Nos corredores de serviço, Valéria o interceptou. Sua arrogância habitual vacilava.
— Eles planejam uma detonação remota no seu núcleo aos cinco minutos da final — ela sussurrou, os olhos fixos nas câmeras de vigilância. — Eles querem um espetáculo de chamas. Se você subir na arena, você morre.
Ela estendeu um dispositivo de acesso.
— É o código da sabotagem. Não por você, Kael. Mas porque a Academia transformou este torneio em uma farsa que nem eu posso tolerar.
Kael segurou o código. O peso do metal frio confirmou a nova realidade: o torneio não era mais uma prova, era uma guerra aberta. A final seria o campo de batalha onde ele derrubaria a Torre ou seria consumido por ela.