Arena de Vidro e Fuligem
O ar dentro da cabine do Sucata tinha gosto de cobre e ozônio. Kael tentou mover a perna direita, mas o comando morreu na base de sua espinha, um curto-circuito neural que o mantinha prisioneiro em seu próprio corpo. O cronômetro no visor, um espectro vermelho, marcava 48 horas para a liquidação total. Ele havia vencido a prova de ventilação, mas o custo fora sua mobilidade.
— Piloto do frame 7-B, responda — a voz do Juiz da Academia, filtrada por estática, soou como uma sentença. — Detectada assinatura energética não autorizada. Iniciando protocolo de confisco e descontaminação.
Kael viu, através das câmeras externas, a segurança da Torre avançar sobre Mestre Jairo. O velho técnico não recuou; ele se colocou entre os guardas e o frame, os punhos cerrados, o rosto uma máscara de desafio que Kael nunca vira antes. Se eles abrissem o cockpit, o segredo do protótipo Pré-Torre seria exposto e a execução seria imediata.
— Não ousem — Kael sibilou, a voz saindo como um rosnado distorcido pelo sistema de áudio do frame.
O que deveria ser uma apreensão silenciosa tornou-se um motim. A multidão, amontoada nas arquibancadas de metal enferrujado, começou a rugir. Eles não viam apenas um frame obsoleto; viam o próprio reflexo de sua miséria vencendo um Vanguard-IV de elite. O som de milhares de pés batendo contra o metal da arena criou um tremor que Kael sentiu na estrutura do Sucata. Os juízes recuaram, hesitantes. A Academia não podia massacrar a massa sem interromper o fluxo de energia que a Torre extraía dos níveis baixos.
Horas depois, na penumbra da oficina de Jairo, a realidade se impôs. O monitor exibia o mapa da fundação da Torre, revelando-a não como uma cidade, mas como uma máquina de extração massiva. A sincronização que Kael forçara não apenas o paralisara, mas revelara a verdade: a Torre convertia o esforço humano em combustível para o topo.
— Não somos cidadãos, Kael. Somos baterias — Jairo murmurou, soldando a blindagem reativa que Kael pagara com sua estabilidade neural. — Eles não querem campeões. Querem energia cinética purificada.
O Torneio de Elite estava a 12 horas. Kael, ainda lutando contra espasmos nervosos, forçou o tronco para cima. Ele precisava vencer o protegido de Valéria sem expor o núcleo proibido do Sucata.
Na arena, o cenário era um labirinto de detritos e fuligem. Kael sabia que aquele resíduo era carbono supercondutor. Quando o Vanguard-IV de seu oponente surgiu, reluzente e arrogante, Kael não buscou o embate direto. Ele manobrou o Sucata através das nuvens de fuligem, forçando-as para dentro das entradas de ar do oponente. Uma sobrecarga térmica catastrófica atingiu o sistema de resfriamento do frame de luxo. O Vanguard-IV parou, inerte, humilhado no centro da arena.
O público explodiu. O nome de Kael ecoou pelas paredes, um desafio direto à autoridade da Academia. Mas a vitória teve um preço. Valéria, observando de sua plataforma, não demonstrou surpresa, apenas uma frieza calculada. Ela gesticulou para a segurança, que avançou sobre Jairo.
— O protótipo é uma violação — Valéria declarou, a voz cortando o ar. — Seu mentor será processado, e você será liquidado antes do pôr do sol.
Kael viu Jairo ser arrastado. Ele tinha apenas uma chance de salvá-lo: vencer a próxima prova, custasse o que custasse.