A Máscara de Metal
O cronômetro no visor de Kael não era apenas um contador; era um veredito. 11:59:42. Doze horas para o Torneio de Elite. Vinte e quatro para a inspeção da Academia. O ar do Nível 3, carregado de ozônio e fuligem industrial, parecia mais rarefeito a cada respiração. Kael ajustou a gola do casaco, tentando esconder a trepidação em seus dedos. O "Sucata", seu frame da Era Pré-Torre, estava escondido sob uma lona reforçada no fundo da oficina de Jairo, emitindo um zumbido de baixa frequência que fazia os dentes de Kael vibrarem.
À sua frente, o Sucateiro — um homem cujas mãos eram garras hidráulicas de segunda mão — analisava o chassi com um medo que Kael detestava.
— Isso não é sucata, garoto — a voz do homem era como metal sendo lixado. — Essa geometria de liga... é tecnologia de fundação. Se a Guarda da Torre encontrar isso, eles não vão apenas te liquidar. Vão apagar seu registro genético da existência.
— Eu preciso de blindagem reativa — Kael interrompeu, a voz firme apesar do dreno de energia que sentia na base da nuca. — Algo que masque a assinatura energética durante a purga de amanhã. Agora.
O Sucateiro riu, um som seco. — O preço é alto. Não aceito créditos. Quero o dado de sincronização da sua interface neural. Apenas uma amostra do que faz esse monstro dançar.
Kael hesitou. Entregar dados de sua sincronização era expor a fraqueza de seu próprio sistema nervoso, mas ele não tinha escolha. Ele conectou o cabo de interface. A drenagem foi imediata; sua visão escureceu por um segundo enquanto o Sucateiro sugava a assinatura da técnica proibida. Quando o cabo se soltou, Kael cambaleou, sentindo as pernas pesadas como chumbo. Ele saiu com as placas de blindagem, mas o custo estava cravado em sua biologia.
Horas depois, o Salão de Honra do Nível 3 era um insulto aos seus sentidos. O ambiente, filtrado para remover o desespero das camadas inferiores, brilhava com uma luz artificial que parecia fria. Valéria surgiu entre a multidão, acompanhada pelo zumbido constante dos drones da Academia. Ela não caminhava; ela ocupava o espaço como se fosse sua propriedade privada.
— Kael — disse ela, o tom destilando uma polidez que feria mais do que um insulto. — Ouvi dizer que seu frame ainda se sustenta. Uma sorte estatística impressionante para alguém que deveria estar na sucata.
Kael manteve a calma, observando os padrões de movimento dela. — A sorte é um componente estratégico, Valéria. Talvez a Academia devesse incluí-la no currículo.
Ela riu, atraindo olhares. — O torneio de amanhã não é uma sala de aula. É uma purga. O sistema não tolera anomalias. Se você entrar naquela arena, meu frame vai garantir que o seu 'Sucata' se torne literalmente o que o nome sugere.
De volta à oficina, o ambiente estava saturado de tensão. Kael forçou as mãos trêmulas a apertarem os parafusos da nova blindagem. A cada rotação, o metal rangia, uma queixa que ecoava a precariedade de sua existência.
— Se você continuar forçando essa sincronização, seu sistema nervoso vai virar cinzas antes da arena — Jairo avisou, movendo-se com precisão técnica.
Kael ignorou o mentor e conectou o drive de dados que havia recuperado dos registros proibidos. A tela projetou um emaranhado de esquemas que não eram plantas de habitação. Eram fluxogramas de energia, circuitos de compressão e válvulas de pressão que mapeavam a estrutura da Torre.
— Jairo, olhe isso — Kael apontou, a voz falhando. — Isso não é uma cidade. É uma máquina de extração. A Torre está sugando energia de nós, convertendo o esforço dos níveis baixos em combustível para o topo.
O velho sucateiro empalideceu. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Kael tentou se levantar para processar a descoberta, mas suas pernas não responderam. O dreno da sincronização cobrava sua fatura. Ele estava preso, paralisado, enquanto o cronômetro para o torneio continuava sua contagem regressiva implacável.