O Primeiro Degrau da Ascensão
O cronômetro no visor do Sucata piscava em um vermelho agressivo: 23:58:12. A contagem regressiva para a inspeção da Academia não era apenas um número; era o som da forca sendo ajustada. Kael sentiu o zumbido familiar do núcleo instável vibrando contra sua espinha, uma ressonância que prometia poder, mas cobrava o preço em náusea. À sua frente, na arena do nível 4, o Vanguard-Elite de seu oponente parecia uma escultura de cromo polido, um contraste insultante com a carcaça remendada de Kael. O piloto adversário, um acadêmico de mãos macias e arrogância de berço, rotacionou o canhão de partículas com uma lentidão deliberada.
— O lixo do nível inferior se perdeu? — a voz do oponente ecoou pelos alto-falantes da arena, distorcida por um filtro de superioridade. — O sistema não tolera sucata, Kael. Vou garantir que você seja liquidado hoje.
Kael não respondeu. Ele ajustou os selos do cockpit, sentindo o suor frio escorrer pelas têmporas. Quando o sino da arena tocou, o oponente disparou. Um feixe de plasma cortou o ar, raspando a blindagem do ombro esquerdo de Kael e espalhando faíscas de metal fundido. Kael mergulhou, ignorando o alarme de integridade. Ele forçou a sincronização, empurrando sua própria energia vital para dentro do núcleo ancestral. O Sucata rugiu — um som gutural, metálico, que não deveria vir de uma máquina obsoleta. Em um movimento de velocidade impossível, Kael contornou o Vanguard, cravando sua lâmina de corte térmico no sistema de ventilação do oponente. O colosso de elite tombou, inerte. O silêncio que seguiu na arena foi absoluto, quebrado apenas pelo chiado do metal superaquecido.
Kael mal teve tempo de celebrar sua subida para o nível 3. Ao descer da plataforma, dois oficiais da Academia, vestindo uniformes de um cinza estéril, bloquearam seu caminho.
— Piloto Kael — disse o oficial mais velho, a voz desprovida de emoção. — O desempenho do seu frame foi... inesperado. A inspeção de conformidade foi antecipada para agora. Entregue o núcleo.
O pânico subiu pela espinha de Kael. Entregar o núcleo significava expor a tecnologia da Era Pré-Torre e sua execução sumária. Foi Mestre Jairo quem interveio, surgindo das sombras com uma chave magnética e uma distração técnica calculada. Ele causou uma sobrecarga nos sensores de monitoramento da doca, criando uma cortina de fumaça digital que permitiu a Kael ocultar o núcleo sob um painel de blindagem falsa.
— Você ganhou tempo, garoto — Jairo sussurrou, a voz carregada de uma culpa sombria. — Mas agora você está no andar de cima. Eles não vão apenas inspecionar seu frame; eles vão tentar desmontar sua vida.
Kael subiu ao nível 3, mas a vitória teve um gosto amargo. Nos corredores de metal polido, um drone de entrega da Academia pairou diante dele, projetando um holograma complexo. Um mensageiro impecável estendeu um convite formal: o Torneio de Elite, a ser realizado em doze horas. A promessa de prestígio era uma fachada; o torneio era uma purga social desenhada para descartar "erros" do sistema. Kael percebeu que, para sobreviver, precisaria tornar-se grande demais para ser descartado, mesmo que isso significasse abandonar seus aliados dos níveis baixos.
Ele caminhou até a Tribuna de Elite, observando a cidade vertical abaixo. A umidade metálica ali não cheirava a progresso, mas a óleo reciclado e ao suor frio de quem não pertencia àquele andar. Um perfume de ozônio e luxo esterilizado cortou o ar. Valéria surgiu, observando-o com um desdém predatório.
— Você parece deslocado, sucateiro — ela disse, sem desviar o olhar do abismo abaixo. — O nível 3 é para quem mantém a integridade do sistema, não para quem o contamina com sucatas ressuscitadas.
Kael sentiu o peso do convite em seu bolso. Ele sabia que ela controlava as regras do torneio. Enquanto ela se afastava com a precisão de um mecanismo de alta performance, Kael percebeu a verdade: ela não estava apenas protegendo o status; ela estava caçando-o ativamente. Ele não passaria da primeira rodada, a menos que encontrasse uma vantagem absoluta. Ao retornar ao seu abrigo temporário, Kael encontrou um registro esquecido no terminal do Sucata: o mapa da fundação da Torre. A Torre não era uma cidade; era uma máquina de extração de energia. E ele acabara de descobrir como alimentar-se dela.