Sincronização Proibida
O cheiro de ozônio e óleo queimado impregnava a oficina, um contraste agressivo com o ar filtrado e estéril dos níveis superiores. Kael observava Jairo, cujas mãos calejadas tremiam ao tatear a carcaça do 'Sucata'. O frame, ainda fumegante após a vitória forçada na arena, parecia um animal ferido, com placas de blindagem tortas e cabos expostos como nervos cortados.
— Você não deveria ter forçado a sobrecarga, moleque — Jairo murmurou, a voz rouca cortando o silêncio tenso. Ele puxou um painel lateral, revelando um núcleo de energia que pulsava com uma luz azulada, instável e proibida. — Isso aqui não é lixo de sucateiro. É um protótipo da Era Pré-Torre.
Kael sentiu um frio na espinha. O cronômetro em seu visor marcava o tempo restante para a liquidação de sua dívida: 47 horas e 14 minutos. A vitória na arena lhe dera apenas uma margem de manobra, não a liberdade.
— O motor respondeu ao meu comando, Jairo. Ele não apenas aguentou a sobrecarga, ele a absorveu — Kael retrucou, aproximando-se. — Se essa máquina é o que você diz ser, ela é a única chance de subir essa escada antes que eles tomem tudo o que resta da minha família.
Jairo soltou um suspiro pesado, seus olhos fixos na complexidade arcaica do motor. — Você não entende a natureza disso. Essa sincronização forçada que você usou? Ela não é uma ferramenta, é um dreno. Se você não conseguir domar esse núcleo, ele não vai apenas falhar; ele vai consumir sua energia vital para compensar o desequilíbrio.
Kael aceitou o risco. Sem recuo, ele se dirigiu ao simulador clandestino. O sistema, uma cópia barata da Academia, tentava bloquear o acesso aos protocolos de alto nível. Ele sentiu o feedback chicotear sua mente: uma dor lancinante, como se agulhas estivessem costurando seus nervos ao chassi. Ele forçou a conexão, ignorando o aviso de erro crítico que piscava em vermelho escarlate. O Sucata respondeu. O frame não apenas se movia; ele antecipava o comando, com uma fluidez que desafiava a lógica da engenharia moderna. No entanto, ao desconectar, Kael caiu de joelhos, tossindo sangue sobre o metal frio. O ganho era visível, mas o custo físico era imediato e brutal.
A tranquilidade da oficina foi interrompida pelo som de botas polidas batendo contra o piso. Valéria entrou sem ser convidada, o uniforme impecável da Academia um insulto à sujeira do ambiente. Ela ignorou Jairo, seus olhos de predadora fixando-se no frame exposto.
— Um erro estatístico, Kael — disse ela, a voz carregada de um desdém que não escondia a curiosidade técnica. — A Academia notou a assinatura energética residual. Ninguém vence um Vanguard-IV com sucata sem ajuda externa ou tecnologia proibida.
Ela circulou o frame, os dedos enluvados roçando a blindagem, antes de lançar um olhar gélido para Kael. — Aproveite sua vitória enquanto pode. A inspeção de segurança foi antecipada para amanhã.
Quando ela saiu, o visor de Kael brilhou em vermelho: 24 horas restantes. O cronômetro da dívida, antes estagnado, agora corria de forma errática. A Academia não queria apenas o frame; eles queriam o segredo da Era Pré-Torre. Kael percebeu que a única forma de evitar a confiscação era vencer o próximo torneio antes que os auditores chegassem. Ele estava na mira da elite, e o relógio não parava de avançar.