A Dívida no Visor
O alerta no HUD pulsava em um vermelho agressivo, quase ofuscando a visão de Kael através do vidro trincado da cabine. Dívida Pendente: 48 horas. Risco de Liquidação de Ativo: Iminente. Kael ignorou o aviso e puxou a alavanca de ignição. O motor do Sucata soltou um engasgo metálico, uma tosse de pistões desgastados que reverberou pela oficina de Mestre Jairo, no Nível 82. O ar ali era denso, saturado com o cheiro de óleo queimado e o zumbido constante dos ventiladores de exaustão da Cidade-Torre.
— Se você for para a arena agora, Kael, não volta com esse chassi inteiro — disse Jairo, a voz rouca cortando o silêncio industrial enquanto ele limpava graxa das mãos calejadas. — O cobrador da Academia está lá fora. Ele não quer créditos. Ele quer o seu frame para a sucata de elite. A dívida da sua família não é apenas contábil, é uma sentença de morte que eles estão executando.
Kael ajustou as correias de contenção, sentindo o metal frio do cockpit contra a nuca. O Sucata não era apenas uma máquina; era a única extensão da dignidade que restava.
— Se eu não for, eles entram aqui e levam o frame de qualquer jeito — Kael respondeu, a voz firme apesar da adrenalina que subia. — Eu tenho uma manobra. Se o sistema de resfriamento aguentar dez segundos de sobrecarga, eu consigo a pontuação de exibição necessária para o adiamento.
Jairo soltou um riso seco, aproximando-se da cabine e batendo na blindagem lateral. — Dez segundos de sobrecarga térmica neste chassi? Você vai se cozinhar vivo antes de ver o cronômetro zerar.
Kael não respondeu. Ele engatou a marcha e acelerou, deixando a oficina para trás sob o olhar preocupado do mentor.
Na Arena de Provas do Nível 80, o ambiente era uma mistura sufocante de ozônio, fluido hidráulico queimado e o suor frio de centenas de espectadores que pagaram para ver o fracasso alheio. Quando o Sucata entrou na areia magnetizada, o som de seus pistões rangendo foi abafado pelas risadas que desceram das arquibancadas de elite.
— Olha só, trouxeram um trator de lixo para a pista! — gritou alguém.
No centro da arena, um Vanguard-IV reluzente girava sua lâmina de alta frequência com precisão matemática. O piloto da elite, um rapaz de ombros largos e insígnia acadêmica, sequer ativou os sensores de combate completo. Para a Academia, Kael era apenas uma falha estatística a ser corrigida.
— Iniciar sequência de prova — a voz sintética do sistema ecoou.
O Vanguard avançou como um raio de prata. Kael não tentou desviar; ele calculou. No momento em que a lâmina inimiga veio para o golpe final, Kael puxou a alavanca de sobrecarga térmica. O Sucata gemeu, o metal brilhando em um laranja incandescente enquanto o núcleo de energia forçava uma descarga proibida. O frame disparou para frente, ignorando a inércia, e colidiu com o Vanguard. O impacto foi brutal. Faíscas choveram enquanto o chassi de Kael, envolto em fumaça e calor, imobilizou o oponente com uma força bruta que não deveria existir. O público silenciou, chocado, enquanto o Vanguard tombava, derrotado pelo sucateiro.
De volta à oficina, o cheiro de ozônio ainda impregnava as narinas de Kael. Ele empurrou o Sucata para dentro, o frame agora um lamento metálico de pistões vazando fluido.
— Você voltou em uma peça, o que é um milagre — resmungou Jairo, examinando o chassi com um scanner manual. O feixe azul varreu o peito do frame, onde o metal parecia ter se fundido de uma maneira incomum, quase orgânica. De repente, o técnico parou, os dedos tremendo. — Kael, a sobrecarga... a maioria dos frames de categoria baixa teria derretido o núcleo. Como você ainda tem um medidor de energia ativo? Isso não é sucata. É um protótipo da Era Pré-Torre.
Kael saltou para o chão, as pernas trêmulas. O visor de seu HUD piscou, ignorando a vitória técnica, focando apenas no que importava.
Dívida pendente: 48 horas.
Ele sobreviveu, mas a marca em seu visor agora brilhava com uma nova luz. Ele não era mais apenas um devedor; ele era o dono de um segredo que a Academia mataria para retomar.