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Chapter 3: O Dossiê da Discórdia

Helena confronta Arthur após descobrir documentos comprometedores sobre seu pai no escritório dele. Durante um almoço tenso com a família de Ricardo, Arthur reafirma sua proteção de forma possessiva e ameaçadora. O capítulo termina com a percepção de Helena de que o noivado esconde uma agenda pessoal de Arthur, enquanto a tensão física entre eles atinge um ponto de ruptura.

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O Dossiê da Discórdia

O silêncio na cobertura de Arthur Viana não era de paz; era de vigilância. Helena observava o reflexo das luzes de São Paulo no vidro temperado, sentindo o peso do anel de noivado — um diamante que, embora deslumbrante, pesava como uma algema em seu dedo. Eram seis da manhã. Faltavam menos de quarenta horas para o congelamento definitivo de seus ativos, e a promessa de liberdade de Arthur parecia cada vez mais uma ilusão dourada.

Arthur entrou na cozinha com a precisão de um mecanismo de relógio, o terno impecável apesar do horário. Ele não a cumprimentou; apenas depositou um tablet sobre a mesa de mármore.

— Os investidores europeus chegam às dez. O contrato de exclusividade precisa ser assinado antes do almoço. Mantenha a narrativa de que nos conhecemos em Zurique — ele ordenou, a voz desprovida de qualquer calor.

Helena sentiu o sangue subir. A necessidade de proteção era um fato, mas ser tratada como um ativo depreciado em seu próprio jogo de sobrevivência era insuportável.

— E a prova documental da fraude de Ricardo? — ela perguntou, a voz firme, recusando-se a baixar o olhar. — Você prometeu que essa fusão seria o canal para expor o que ele fez com a minha empresa.

Arthur parou, a mão na maçaneta da porta que dava acesso ao escritório privativo. Seus olhos, frios e calculistas, encontraram os dela.

— Sua empresa já é um esqueleto, Helena. Focar no passado é o que mantém você na posição de vítima. Foque no futuro que estou comprando para você.

Ele saiu, fechando a porta com uma trava eletrônica que emitiu um clique seco. Helena esperou. O padrão de Arthur era metódico, mas a arrogância de quem acredita que ninguém ousa desafiá-lo era sua brecha. Quando o som dos passos dele se afastou em direção à varanda, ela se aproximou da porta. O sistema de segurança, em uma falha momentânea de atualização, permitiu que ela entrasse.

O escritório cheirava a couro envelhecido e uma austeridade que parecia desidratar o ar. A gaveta central da mesa de mogno cedeu com um estalo, revelando uma pasta de couro negro. Helena a abriu, esperando contratos de fusão. Em vez disso, encontrou relatórios financeiros de uma década atrás, encabeçados pelo logotipo da construtora de seu falecido pai. O nome dele aparecia em letras garrafais, ligado a transferências ilícitas que, na época, foram atribuídas a um desvio por terceiros. O coração de Helena falhou uma batida. Arthur não a escolhera por acaso. Ele possuía as provas que poderiam ter salvado a reputação de seu pai — ou que garantiram sua queda.

Um ruído de passos no corredor a fez congelar. Ela fechou a pasta, mas o estrondo da porta sendo aberta ecoou como um tiro. Arthur estava parado no umbral, observando-a através das câmeras de segurança instaladas no teto.

— Curiosidade é um traço perigoso, Helena — ele disse, a voz baixa, aproximando-se com a lentidão de um predador.

— Meu pai não era um criminoso — ela rebateu, a voz trêmula, mas firme. — Por que o nome dele está aqui?

Ele não respondeu imediatamente. Apenas a encurralou contra a estante de livros, o corpo dele bloqueando qualquer saída. — O mundo que você habita é construído sobre segredos, Helena. Eu apenas os coleciono.

Mais tarde, a tensão se deslocou para o restaurante onde a família de Ricardo aguardava. O ar era rarefeito, carregado com o perfume caro das elites e o peso de olhares que, há quarenta e oito horas, não passavam de desprezo. Ricardo não escondia o escárnio, enquanto sua mãe, uma matriarca cujo sorriso era uma lâmina, observava Helena como quem analisa um defeito em uma joia.

— Um noivado tão súbito, Helena — a sogra de Ricardo comentou, destilando veneno. — Sabemos que o desespero é um conselheiro ruim, mas Arthur... ele não costuma colecionar passivos.

Helena sentiu o sangue fugir de seu rosto, mas a mão de Arthur pousou sobre a dela. O toque era firme, possessivo, ancorando-a.

— O que Helena considera um passivo, eu vejo como um investimento que ninguém aqui teve a competência de valorizar — Arthur respondeu, o barítono silenciando a mesa vizinha. — Vocês confundem lealdade com conveniência. Um erro que custou a vocês o acesso ao meu grupo, Ricardo. Ou já esqueceu quem detém as provas que mantêm sua empresa fora de um processo criminal?

Ricardo empalideceu, a ameaça de Arthur pairando sobre a mesa como uma lâmina invisível. Arthur não a soltou, mantendo-a firmemente presa ao seu lado enquanto sussurrava uma ameaça velada a Ricardo, garantindo que o ex-marido entendesse que qualquer movimento contra ela seria o fim de sua própria carreira.

De volta à cobertura, a atmosfera mudou. A sala de estar, um aquário de vidro e aço, parecia pequena demais para a eletricidade entre eles. Arthur tirou o paletó, jogando-o sobre a poltrona.

— Você nunca foi convidada a vasculhar meu escritório — ele murmurou, fechando o espaço entre eles.

Helena sentiu o cheiro de cedro e o calor que emanava dele. — Isso é sobre vingança contra o círculo social que me descartou, ou você está me usando para enterrar o que aconteceu com meu pai?

Arthur não recuou. Ele a puxou para perto, a mão subindo pela linha de seu braço, um toque que queimava através do tecido do vestido. — A verdade é um luxo que você não pode pagar agora, Helena. Mas posso garantir que, se você for minha, ninguém mais ousará tocar no seu legado.

No meio da sala, ele a forçou a uma dança improvisada, o silêncio sendo preenchido apenas pela respiração pesada de ambos. Arthur sussurrou contra seu ouvido: — Você está tremendo.

Helena percebeu, com um pavor que se misturava a uma atração proibida, que o tremor não era apenas dela. Arthur também estava tenso, o controle que ele exercia sobre tudo ao seu redor falhando diante da proximidade física. O noivado era uma farsa, mas, enquanto ele a segurava, a linha entre o contrato e o desejo começou a se dissolver. A pasta, deixada para trás no escritório, era a prova de que ele a escolhera por um motivo muito mais escuro do que negócios, e Helena agora sabia que, para sobreviver, teria que jogar o jogo de Arthur melhor do que ele mesmo.

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