A Moeda da Traição
O ar no escritório de Beatriz não era apenas ar; era uma mistura de cera de vela, poeira de arquivo morto e o odor metálico de um sistema de segurança que nunca dormia. Lucas sentiu o livro-razão e o gravador digital pressionarem suas costelas, uma saliência fria sob o paletó que parecia denunciar cada batida de seu coração. O relógio de parede, um pêndulo de mogno que marcava o tempo com uma precisão sádica, lembrava-lhe: restavam menos de 70 horas para a declaração de óbito.
— Lucas? — A voz de Tio Otávio soou como o ranger de uma dobradiça enferrujada. — O Delegado Rocha veio prestar as condolências e agilizar a papelada. O desaparecimento da Beatriz exige, por lei, uma perícia imediata no ambiente de trabalho dela. Você estava terminando a limpeza, não estava?
O Delegado Rocha estava parado na porta, os olhos fixos em Lucas com uma curiosidade predatória. Ele não buscava pistas; buscava um culpado para preencher o vazio deixado pela herdeira, alguém cuja insignificância social tornasse a culpa conveniente.
— Apenas organizando os papéis pessoais, tio — Lucas forçou um sorriso, as mãos suadas escondidas nos bolsos. — Beatriz sempre foi metódica. Não queria que nada se perdesse na confusão.
Otávio deu um passo à frente, o olhar estreito captando a rigidez nos ombros do sobrinho. O patriarca estendeu a mão, uma ordem disfarçada de solicitação. — Dê-me o que encontrou. Objetos de valor sentimental, documentos, qualquer coisa. A perícia precisa de tudo para o inventário.
Lucas sentiu o sangue fugir do rosto. Entregar o livro era entregar sua própria cabeça. Com um movimento ensaiado, ele simulou um tropeço, derrubando uma pilha de arquivos sobre a mesa. Enquanto o delegado se distraía com a desordem, Lucas aproveitou o caos para deslizar para fora do escritório, murmurando desculpas sobre a falta de ar. A troca de olhares cúmplices entre Otávio e Rocha, captada no reflexo da janela, foi o aviso final: a lei, naquela cidade-santuário, não servia à justiça, mas ao silêncio.
Trancado no quarto, Lucas finalmente respirou. O livro-razão, agora sobre a mesa de cabeceira, parecia uma brasa ardente. Quando tentou decodificar a primeira entrada usando o terminal da mansão, um alerta vermelho piscou na tela. O servidor privado de Otávio monitorava cada acesso. Tentar contornar aquilo seria disparar um alarme direto no escritório do tio. Ele precisava de um intermediário, alguém que conhecesse as entranhas daquela infraestrutura sem ser notado.
Ele encontrou o cartão de visita de Beto, um ex-funcionário de TI da família, escondido no fundo de uma gaveta. O café onde Beto se escondia ficava nos limites da cidade, um cubículo decadente onde o cheiro de café queimado e óleo de motor impregnava o ar.
— Você não deveria estar aqui, Lucas — disse Beto, sem levantar o olhar do monitor. — A família não gosta de quem fuça onde o reboco ainda está fresco. O que você quer custa mais do que o seu sobrenome pode pagar.
— Beatriz não fugiu, Beto. Ela foi apagada — retrucou Lucas, a voz firme apesar da trepidação interna. — Eu tenho o livro. Só preciso que você me diga quem são os nomes nas transações de terça-feira.
Beto soltou uma risada seca. — Você chegou atrasado. A polícia local já limpou os registros de entrada e saída da Beatriz nos servidores da prefeitura. Eles não querem apenas o livro, Lucas. Eles querem a sua omissão.
O hacker inclinou-se, a luz fraca revelando uma cicatriz pálida no canto da boca. — Eu posso decodificar, mas não é de graça. Se eu abrir esse arquivo, seu nome fica ligado ao meu no radar deles. Para provar que você não é um cão de caça do seu tio, você vai me trazer a chave de acesso do cofre pessoal dele. O documento que prova o suborno do juiz local.
Lucas sentiu o peso da armadilha. Roubar o cofre de Otávio era uma sentença de morte, mas sem a decodificação, ele estava cego. Ao retornar à mansão, a atmosfera parecia mais densa, as sombras dos ancestrais nos retratos pareciam observá-lo. Otávio o esperava no corredor, a postura impecável e o cheiro de charuto caro impregnando o espaço.
— Você tem parecido um tanto... distraído, Lucas — disse o tio, parando a centímetros dele. — Quase como se estivesse guardando algo que não lhe pertence.
Lucas sabia que o cerco havia se fechado. O relógio de pulso marcava o tempo restante, uma contagem regressiva que ele agora carregava no peito, sabendo que a única forma de sobreviver era trair o único homem que ele deveria temer. Seu celular vibrou no bolso: uma mensagem curta de Beatriz: 'Eles já sabem que você tem o livro'.