A Traição de Valerius
O Hangar 4 não era mais um espaço de manutenção; era um túmulo industrial em aceleração. O Centurião-4 estremeceu sob o impacto da explosão interna, e o painel holográfico de Kaelen piscava em um vermelho agressivo: DÍVIDA ATUAL: 8.700 CRÉDITOS. INTEGRIDADE DO NÚCLEO: 14%. O gosto de cobre inundava sua boca enquanto o sistema de suporte de vida falhava, sufocado pela fumaça tóxica que subia das entranhas da máquina. Do lado de fora, no convés de comando, a voz de Valerius ecoava pelos alto-falantes de emergência, uma melodia de desdém puro.
— Morra com a sua insignificância, Kaelen. O sistema não tem lugar para peças recicladas como você — a voz de Valerius era fria, desprovida de qualquer hesitação. Ele havia iniciado a sequência de sobrecarga térmica, transformando o hangar em um forno de pressão espiritual. Se o núcleo do Centurião explodisse, Kaelen seria vaporizado e sua dívida seria absorvida pela conta de Valerius como 'descarte de resíduos'.
Kaelen não podia se dar ao luxo de odiar; o ódio consumia essência. Ele precisava de cálculo. Seus dedos, trêmulos pela drenagem do núcleo parasita, dançaram sobre os comandos de emergência. A memória de curto prazo falhou por um segundo — um borrão cinzento onde deveria estar o código de override. Ele fechou os olhos, forçando a mente a buscar o padrão que aprendera nas sombras do Subnível 4. Ele ativou a técnica proibida. A dor foi imediata, como se agulhas de gelo perfurassem seus nervos, mas a resposta do Centurião foi instantânea: o núcleo estabilizou, drenando a vitalidade de Kaelen para conter a ignição. Com um rugido metálico, ele rompeu a contenção, forçando a saída do hangar antes que o teto desabasse sobre ele.
Lá fora, nos corredores de serviço, o zumbido metálico nos ouvidos era mais insuportável do que o calor do incêndio. Ele tropeçou, a visão oscilando. O Mapa da Colheita, o drive de dados que provava que a Academia moía cadetes como grãos para alimentar mechs de elite, pesava como chumbo em seu bolso. Ele precisava de uma rota de fuga. Ao conectar o drive a um terminal de segurança, o sistema reagiu com hostilidade, disparando alarmes. Kaelen não tentou apagar os registros; ele os usou como uma chave mestra, forçando uma sobrecarga na rede de câmeras da Academia. Enquanto os guardas eram desviados por erros de sistema, ele percebeu a verdade: o Mapa não era apenas evidência. Era uma chave de acesso que Mestra Elara esperava que ele ativasse.
Encurralado em um ponto cego, Kaelen foi interceptado pela própria Mestra Elara. Ela não parecia surpresa; parecia satisfeita.
— O jogo de Valerius terminou, Kaelen — disse ela, a voz cortando o barulho das explosões distantes. — Ele nunca foi o prodígio que a Academia precisava. Apenas um filtro de estresse.
— Vocês reciclam cadetes em combustível — Kaelen sibilou, o sangue escorrendo pelo canto da boca. — Eu vi os registros. Isso não é um teste, é um matadouro.
Elara deu um passo à frente, seus olhos frios encontrando os dele.
— A Academia é uma colheitadeira, Kaelen. E você foi selecionado para ser a 'chave' que quebrará a engrenagem. Sua dívida não é um débito financeiro; é o custo de manutenção da consciência que você carrega em seu núcleo. Você não é um aluno. Você é o próximo componente do sistema.
De volta à sua oficina, com menos de dez horas para o teste de elite, Kaelen encarava o silêncio. A voz no núcleo de essência sussurrava, exigindo mais vitalidade em troca de poder. Ele tomou uma decisão: em vez de esconder o Mapa, ele o fundiu diretamente com o núcleo do Centurião-4. O metal rangeu, o hardware protestando contra o código proibido. Ele não seria a chave de Elara. Ele seria a arma que implodiria a farsa. O sistema da Academia anunciou o início do teste. Kaelen entrou na arena, sabendo que sua dívida era agora a menor de suas preocupações diante do que ele estava prestes a liberar.