Auditoria de Sangue
O zumbido do Centurião-4 não era a vibração limpa de um motor de elite; era um chiado orgânico, o som de um pulmão perfurado tentando respirar. Kaelen cambaleou no centro da Oficina de Manutenção, o gosto metálico de sangue impregnando sua boca. No visor neural, o número brilhava em um vermelho que parecia queimar a retina: 8.700 créditos. Era a cifra de sua sentença, um peso que superava qualquer blindagem de tungstênio.
Sua mão direita tremeu ao tentar recalibrar os estabilizadores. Uma lacuna de memória se abriu — um vazio de dez minutos após o último duelo. Ele não se lembrava de como havia levado a máquina até o hangar. O núcleo anômalo, instalado no peito do Centurião, pulsava com uma luz violácea, drenando sua vitalidade gota a gota para compensar a ineficiência dos sistemas térmicos. Cada batida daquele núcleo era um pacto faustiano: ele estava comprando poder com seus próprios anos de vida.
— Estabilize — murmurou Kaelen, forçando a interface. A dor veio como uma facada atrás dos olhos. A consciência parasita dentro do núcleo não apenas consumia; ela respondia. Imagens fragmentadas de técnicas de combate que ele jamais estudara inundaram seu córtex, misturando-se aos seus próprios padrões. O mech estava mapeando sua resistência, estudando-o como um hospedeiro a ser consumido. Kaelen forçou uma reconfiguração manual, ignorando o aviso de erro crítico. Ele precisava de eficiência bruta antes da auditoria.
O chamado veio cedo. A Sala de Auditoria da Academia cheirava a ozônio e desinfetante hospitalar, um cubículo projetado para suprimir qualquer ressonância espiritual não autorizada. Mestra Elara estava parada diante do terminal, seus dedos longos tamborilando contra o vidro. Ela não precisou olhar para ele para que a pressão na sala subisse.
— O salto de performance no setor de manobras foi anômalo, Kaelen — a voz dela era gélida. — Centuriões da sua classe não sustentam aquela aceleração por mais de três segundos. O seu manteve a inércia por doze. Explique-se.
Kaelen sentiu a pontada da estática mental. Ele apertou os punhos, sentindo o frio da drenagem subir pelos braços. — Eu forcei os limitadores, Mestra. O risco era necessário para a classificação.
Elara tocou um comando. Uma tela holográfica exibiu a assinatura energética do núcleo: um padrão proibido, uma tecnologia que a Academia tentava erradicar há décadas. Ela se aproximou, o perfume de ozônio tornando-se sufocante. — Eu sei o que você está escondendo, Kaelen. Você encontrou um fragmento de técnica proibida e o fundiu com um núcleo instável. O custo disso não é apenas a sua dívida de 8.700 créditos. É a sua integridade estrutural.
Ela pausou, observando-o como quem avalia uma ferramenta que está prestes a quebrar. — Não vou entregá-lo. Ainda não. Mas a sua margem de erro acabou. O próximo teste de elite não é uma prova de habilidade; é uma colheita.
Kaelen saiu da sala com as pernas pesadas, a mente um borrão de pânico e determinação. Ele precisava de peças, de qualquer coisa que pudesse mitigar a drenagem antes do ciclo de ranking que começaria em menos de dez horas. Ele se arrastou até o Setor Industrial, um labirinto de tubulações enferrujadas e vapor ácido onde a Academia escondia seus erros. Enquanto remexia em uma pilha de sucatas, um estrondo interrompeu sua busca.
Um transporte de carga pesada, marcado com o selo da faculdade de engenharia, deslizou pelo trilho magnético. Atrás dele, uma esteira levava contentores selados destinados ao incinerador central. Kaelen se escondeu atrás de uma coluna, o coração martelando contra as costelas. O conteúdo de um dos contentores, parcialmente aberto, revelou o que a Academia chamava de 'resíduos'. Não eram peças. Eram braços de mechs, carcaças de cadetes que ele reconhecera dos testes anteriores, sendo processados em combustível espiritual concentrado.
A verdade caiu sobre ele como um peso esmagador: a Escada não era uma meritocracia. Era um sistema de reciclagem humana. Sua dívida de 8.700 créditos não era apenas um número financeiro; era o preço atual de sua própria carcaça.
Ele estava voltando pelos corredores, a mente em colapso, quando uma sombra bloqueou seu caminho. Mestra Elara estava ali, seus olhos escuros escaneando-o como se ele fosse uma peça defeituosa em uma linha de montagem. Ela se inclinou, sua voz um sussurro que cortou o zumbido metálico do corredor.
— Eu sei o que você viu no setor de processamento, Kaelen. E sei o que você está escondendo. O preço da sua ascensão está prestes a subir. Tente não ser o próximo combustível.