A Escada Não Perdoa
O terminal da Arena de Provas não piscava; ele sangrava um vermelho estático que queimava a retina de Kaelen. Saldo: 7.500 créditos de dívida. O número, projetado sobre a carcaça fumegante do seu Centurião-4, era uma sentença de morte administrativa. O suor que escorria pela têmpora de Kaelen ainda carregava o gosto metálico da técnica proibida — um rastro de ozônio e o vazio súbito onde deveriam estar os últimos três minutos de combate.
— Sete mil e quinhentos? — A voz de Kaelen saiu como um chiado de engrenagem gasta. — A taxa de processamento deveria ter sido estornada após a vitória na Classe C. O protocolo de mérito exige...
— O protocolo de mérito é uma sugestão para quem não tem dono, Kaelen. — Valerius surgiu do corredor de acesso, o uniforme impecável contrastando com o óleo negro que manchava as luvas de Kaelen. Ele ajustou os botões de punho com uma lentidão calculada. — Eu comprei a auditoria de dívida retroativa. Para a Academia, você não é um vencedor; é um ativo que consumiu recursos excedentes durante o duelo. Você lutou como um mestre, mas para o sistema, você é apenas um buraco negro de créditos que precisa ser drenado.
Kaelen sentiu o peso da opressão administrativa comprimindo seus pulmões. Cada vitória era uma corda que se apertava. Ele ignorou o sorriso de Valerius e arrastou-se para o cubículo de manutenção. O Centurião-4 o aguardava como um animal ferido, com o chassi torácico aberto. Sobre a bancada, o núcleo de essência que ele adquirira por um preço proibitivo pulsava com uma luz violácea, instável e faminta.
Com as mãos trêmulas pela exaustão e pela névoa mental — a perda de memória de curto prazo era o preço da eficiência proibida —, Kaelen encaixou o núcleo. O zumbido que emanou do mech não era o som uniforme de um componente estável; era uma frequência irregular que ressoava diretamente em seus ossos. Então, o sussurro surgiu, não vindo do comunicador, mas de dentro de seu próprio crânio: “...o circuito não é o fim, é o condutor...”
O alerta de convocação da Mestra Elara interrompeu o delírio. O escritório dela cheirava a resfriamento líquido e autoridade absoluta. Ela observava uma projeção holográfica da luta, focada no momento exato em que Kaelen sacrificara a integridade do braço esquerdo do mech para garantir o golpe final.
— Você esqueceu quem era seu oponente por três segundos durante o impacto — disse Elara, sem desviar os olhos da projeção. — A técnica é eficaz, Kaelen, mas o preço é a sua própria identidade. A dívida de 7.500 créditos é apenas o primeiro degrau. Se não subir para o setor de elite no próximo ciclo, o sistema liquidará seu mech e seu corpo será reciclado para cobrir o saldo remanescente.
Kaelen saiu da sala com a consciência de que Elara era sua única aliada, mas uma aliada que o via apenas como combustível descartável. O relógio no Centro de Comando disparou a contagem regressiva para o próximo teste de ranking. Ele não tinha tempo para lamentar as lacunas em sua memória. Ao tocar a interface para registrar sua entrada no setor de elite, o sistema consolidou sua dívida, dobrando os juros em caso de falha.
O Centurião-4 estremeceu ao longe, o núcleo em seu peito emitindo um brilho quase insano. Kaelen olhou para a Escada de Provas, agora mais íngreme do que nunca. Ele havia vencido a batalha, mas o sistema acabara de transformar sua vitória na armadilha perfeita. O núcleo sussurrou novamente, uma promessa de poder que ele não tinha certeza se conseguiria pagar.