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Chapter 8: O Documento Fatal

Beatriz confronta Rafael com a verdade sobre a falência de seu avô após ser abordada por Eduardo, que revela a natureza da armadilha. Rafael admite sua orquestração, forçando Beatriz a reavaliar sua aliança e o custo de sua proteção.

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O Documento Fatal

O silêncio dentro da limusine era uma lâmina. Beatriz observava as luzes de São Paulo — um mar de brasas que, naquela noite, parecia zombar de sua tentativa de retomar o controle. Em sua bolsa, o peso da pasta de couro não era apenas papel; era a prova documentada de que Rafael, o homem que ela contratara para protegê-la, fora o arquiteto da ruína de seu avô. Cada quilômetro que a aproximava da capital era um lembrete de que sua liberdade era uma ilusão custeada por seu próprio algoz.

Rafael, ao seu lado, mantinha o olhar fixo no tablet. Ele não parecia um homem que acabara de ser descoberto. Sua postura, impecável e fria, sugeria que ele já esperava a revelação ou, pior, que ela fazia parte do roteiro que ele escrevera para mantê-la sob sua órbita.

— Você está muito silenciosa, Beatriz — ele comentou, sem desviar os olhos da tela. A voz era baixa, desprovida de qualquer calor, mas carregada de uma autoridade que a forçava a reagir. — O campo costuma trazer clareza para a maioria das pessoas. Para você, parece ter trazido apenas peso.

Beatriz apertou a alça da bolsa. Ela não podia confrontá-lo ali, dentro daquela cápsula de isolamento. Se Rafael sentisse que ela tinha o documento, ele o arrancaria antes que ela pudesse usá-lo. Ela precisava de terreno sólido. Precisava de uma plateia ou de um abismo.

Ao desembarcarem no estacionamento privativo do edifício, o ar parecia rarefeito. Beatriz mal teve tempo de ajustar o casaco antes que uma silhueta se destacasse entre as colunas de concreto. Eduardo não esperou que ela se aproximasse; ele avançou, o rosto desprovido da máscara de cordialidade que usava em eventos da alta sociedade.

— Você parece exausta, Beatriz. O noivado com Rafael é tão desgastante assim ou é a culpa de saber quem ele realmente é? — A voz de Eduardo ecoou no espaço vazio, carregada de um veneno que ele não se preocupava mais em disfarçar.

Beatriz travou o passo. Eduardo estendeu um envelope de couro amarelado, claramente retirado de algum arquivo antigo. Não era uma ameaça comum; era a assinatura de um contrato de liquidação que Beatriz reconheceria em qualquer lugar.

— Você acha que ele te protege? — Eduardo sibilou, os olhos brilhando com a crueldade de quem finalmente encontrou a fraqueza alheia. — Ele não está te salvando, Beatriz. Ele está te mantendo como um troféu em uma vitrine que ele mesmo destruiu. Esse contrato que você assinou? É a coleira que garante que você nunca vai descobrir o resto da história.

O impacto daquelas palavras foi físico. Beatriz sentiu o estômago revirar, mas manteve o queixo erguido. Eduardo e Rafael eram dois lados da mesma moeda: ambos queriam o controle total sobre seu futuro. Ela guardou o envelope de Eduardo sob o braço, sentindo o peso do segredo queimar sua pele.

Horas depois, o salão do Hotel Fasano pulsava com o zumbido de mil conversas, uma sinfonia de taças de cristal e sorrisos plastificados. Ao seu lado, Rafael mantinha uma mão firme na base de suas costas; um gesto que o mundo interpretava como possessão apaixonada, mas que ela sentia como um aviso.

— Relaxe — murmurou Rafael, o tom baixo o suficiente para que apenas ela ouvisse. — Helena está observando. Se você demonstrar a menor hesitação, ela vai farejar a farsa.

Beatriz ajustou o colar de diamantes, um empréstimo condicionado ao sucesso daquela noite. — Eu não estou hesitante, Rafael. Estou calculando o custo — respondeu ela, mantendo o sorriso fixo enquanto Helena Viana se aproximava, flutuando em um vestido de seda azul que parecia uma armadura.

— Beatriz, querida — a voz de Helena era um corte preciso. — Fiquei sabendo que a sua empresa familiar foi completamente liquidada. É uma tragédia, embora, dada a gestão, fosse quase inevitável, não acha?

Antes que Beatriz pudesse responder, Rafael interveio. Ele sacrificou uma oportunidade de negócio, ignorando um rival que tentava atrair sua atenção, e colocou-se entre Beatriz e a matriarca. — A gestão da empresa de Beatriz não é da sua conta, Helena. E se o seu interesse é a liquidação, sugiro que foque nos próprios ativos que você está perdendo na bolsa.

O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo estalar do gelo no copo de Rafael. A proteção dele era real, mas era um escudo que a mantinha prisioneira.

De volta à cobertura, a fachada caiu. Beatriz jogou a pasta de couro sobre a mesa de mármore com força suficiente para que o som ecoasse, seco e definitivo. Rafael estava parado diante da adega, uma taça de cristal na mão, o perfil talhado em frieza. Ele observou a pasta, depois Beatriz, sem surpresa.

— Eduardo me entregou os documentos — disse Beatriz, a voz firme, embora o chão parecesse oscilar. — Você não me protegeu do mercado, Rafael. Você me isolou dentro da sua própria estratégia de controle.

Rafael deixou a taça sobre o aparador. Ele caminhou até ela, ocupando o espaço com uma autoridade que ela não sentia mais como proteção. — O mercado não tem espaço para sentimentalismo, Beatriz. Sua família estava falida antes mesmo de você assinar o contrato comigo. Eu apenas transformei uma perda inevitável em uma peça útil no tabuleiro. Você queria proteção? Você teve. Você queria status? Você recuperou. O preço foi a verdade, mas, convenhamos, você nunca foi muito boa em lidar com ela sozinha.

Beatriz olhou para ele, a imagem do homem que ela pensou ser seu aliado desmoronando diante de sua própria ambição. Para destruir Eduardo e recuperar o que era seu, ela teria que jogar o jogo de Rafael até o fim, ou talvez, destruir o tabuleiro inteiro, mesmo que isso significasse queimar o próprio Rafael no processo. O noivado não era mais uma farsa; era uma armadilha perigosa onde a confiança era o custo final.

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