Compensação Emocional
O silêncio na cobertura de Rafael não era uma trégua; era a ausência de som que precede uma demolição. Beatriz observava o perfil dele contra as luzes frias da Avenida Paulista, que se estendiam lá embaixo como uma teia de aranha eletrificada. Ele ainda segurava o copo de uísque, os dedos firmes, sem o menor sinal do tremor que um homem comum teria após perder um contrato de cinquenta milhões de reais apenas para calar os sussurros sobre o passado dela.
— Você não precisava ter feito aquilo — Beatriz quebrou o silêncio, a voz controlada. — Helena já estava pronta para o bote. O contrato era o seu escudo contra o conselho, não o meu.
Rafael virou-se lentamente. O rosto, uma máscara de indiferença calculada, não entregava nada, mas o olhar era pesado, carregado de uma possessividade que ele não se dava mais ao trabalho de esconder. Ele caminhou até ela, o som dos sapatos de couro no piso de mármore ecoando como uma contagem regressiva.
— O contrato é uma peça de papel, Beatriz. A reputação que você carrega — a minha reputação, por extensão — não é. Helena não estava atacando você; ela estava testando minha tolerância ao prejuízo. Se eu recuasse, eu teria perdido muito mais do que dinheiro. Eu teria perdido a autoridade.
Beatriz sentiu o peso daquelas palavras como um grilhão invisível. A proteção dele não era um ato de bondade; era uma extensão de sua própria soberania. Se ela era sua noiva, ela era um ativo que ele não permitia que fosse depreciado por terceiros. Ela percebeu, com um calafrio, que ao aceitar o escudo de Rafael, ela havia cedido o controle de sua própria narrativa.
Para escapar da pressão opressiva da elite paulistana e das insinuações de Helena, Rafael a levou para a propriedade rural da família Viana. Longe das torres de vidro de São Paulo, o ar parecia mais rarefeito, carregado de uma tensão diferente. Ali, sem os olhos dos colunistas sociais, a fachada de noivado parecia mais perigosa do que em qualquer salão de gala.
Rafael entrou no aposento com passos deliberados, carregando duas xícaras de café. O aroma amargo invadiu o ambiente. Ele colocou a xícara sobre a mesa de mogno entre eles, uma barreira de porcelana fina que Beatriz não se atreveu a cruzar.
— A imprensa esquece rápido quando há um novo alvo — disse ele, a voz desprovida da agressividade da gala. — Mas Helena não esquece. Ela sabe que aquele contrato não foi um sacrifício comum. Foi um erro estratégico que ela não vai perdoar.
Beatriz arqueou uma sobrancelha. — Você não hesitou, Rafael. Por que agora finge que o custo foi um fardo insuportável?
Ele se aproximou, o movimento sutil, mas carregado de uma eletricidade que forçava Beatriz a recuar mentalmente. Ele não respondeu imediatamente. Seus olhos, frios e penetrantes, pareciam ler cada pensamento dela. Ela sentiu que, naquele silêncio, a lógica fria do acordo estava se desfazendo, substituída por algo muito mais volátil. Ela precisava de uma alavanca. Enquanto ele se distraía com o fogo na lareira, ela notou um compartimento entreaberto na escrivaninha de mogno. Dentro, um dossiê com o timbre do banco de seu avô. O documento que ela buscava há anos estava ali, confirmando que a falência de sua família fora orquestrada por Rafael muito antes do casamento.
Ela guardou o segredo, sentindo o peso do papel em seu bolso interno como uma arma carregada.
O retorno a São Paulo foi brutal. O estacionamento privativo do Golden Hall era um deserto de concreto e silêncio. Antes que ela pudesse alcançar o carro, Eduardo surgiu da penumbra, o semblante desprovido da máscara de bom moço.
— Você aprendeu a ser uma excelente atriz, Beatriz. Quase acreditei que aquele desespero era real — a voz de Eduardo cortou o ar.
— O que você quer, Eduardo? — ela respondeu, mantendo a postura ereta.
Ele deu um passo à frente, girando um envelope pardo entre os dedos. A luz do teto incidiu sobre o papel, revelando o timbre oficial da holding que deveria estar extinta. O estômago de Beatriz contraiu-se.
— Rafael não é o seu salvador. Ele é o arquiteto da sua miséria. Enquanto você se deixa levar por esse teatrinho de proteção, ele está apenas garantindo que você não descubra quem realmente destruiu o seu legado. O noivado não é o seu escudo, Beatriz. É a coleira que ele usa para manter você perto o suficiente para não ver o golpe final.
Beatriz encarou o horizonte de São Paulo, percebendo que o noivado não era mais uma farsa, mas uma armadilha. Ela precisava destruir ambos, mas antes, teria que jogar o jogo de Rafael até o fim.