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Chapter 9: Colisão de Interesses

Beatriz e Rafael destroem a reputação de Eduardo em uma aparição pública, usando as provas de fraude financeira que Beatriz coletou. A vitória, porém, deixa Beatriz em uma posição precária: ela agora depende inteiramente de Rafael, o homem que orquestrou a falência de seu avô, forçando-a a considerar que sua próxima batalha será contra o seu próprio protetor.

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Colisão de Interesses

O ar na cobertura de Rafael parecia rarefeito, uma pressão atmosférica que não vinha da altitude, mas do peso dos documentos espalhados sobre a mesa de mármore nero marquina. Beatriz não se sentou. Ela permaneceu de pé, as mãos firmes sobre a pasta de couro que retirara do escritório dele, o couro frio sob seus dedos servindo como um âncora de realidade. Rafael, posicionado diante da parede de vidro que exibia a imensidão pulsante de São Paulo, não se virou. O reflexo dele no vidro era o de um homem que esperava o impacto, mas não o temia. Ele segurava um copo de cristal, o gelo emitindo um estalo seco no silêncio da sala.

— Você sabia — disse Beatriz, sua voz desprovida de qualquer tremor. — A falência do meu avô não foi uma série de erros de mercado. Foi um projeto. O seu projeto.

Rafael girou lentamente. O cinismo que habitualmente adornava seus lábios tinha dado lugar a uma neutralidade perigosa. Ele não negou. Em vez disso, deu um gole lento no uísque, os olhos fixos nela com uma intensidade que a obrigou a sustentar o olhar, sem recuar.

— O mercado não perdoa sentimentos, Beatriz. Seu avô era um visionário, mas não era um estrategista. Ele estava destinado a ser engolido, com ou sem a minha intervenção. Eu apenas antecipei a inevitabilidade para que os ativos não fossem pulverizados por abutres menores.

Beatriz sentiu uma onda de náusea, mas a transformou em alavanca. Ela deslizou a pasta de couro para o centro da mesa. Dentro, as provas daquela manobra de mercado estavam documentadas com a frieza de uma sentença. Rafael a conhecia, sim, talvez melhor do que ela mesma, mas ele havia subestimado sua capacidade de aprender o jogo. Enquanto ele a observava, ela percebeu que a proteção que ele oferecia nunca fora um escudo; era uma coleira de ouro.

Horas depois, o salão de baile do Fasano fervilhava com o perfume caro de uma elite que não suspeitava que o noivado de Beatriz e Rafael era uma trégua armada. Beatriz ajustou o colar de diamantes, sentindo o peso do metal. Eduardo surgiu quando ela se afastou da mesa de convidados, fechando o caminho entre as colunas de mármore. Ele não exibia o sorriso cínico de costume; sua expressão era de uma urgência predatória.

— Você parece uma rainha, Beatriz. Pena que o trono seja feito de papel — ele murmurou, estendendo um envelope pardo. — Rafael não a salvou da falência, ele a comprou. Tenho os registros da liquidação da holding do seu avô. Ele estava lá, orquestrando cada centavo que saiu do seu bolso para entrar no dele.

Beatriz sentiu o sangue esfriar, mas sua postura não vacilou. Ela não deu ao ex-marido a satisfação do choque. Fixou o olhar no dele, mantendo o queixo erguido.

— Você acha que isso é uma revelação? — ela perguntou, a voz cortante. — Eduardo, eu não estou com Rafael por gratidão. Estamos em uma guerra onde você é o alvo principal. Se pensa que expor o passado dele vai me fazer correr de volta para o seu lado, você subestima o tamanho da minha vingança.

Antes que Eduardo pudesse reagir, a sombra de Rafael se projetou sobre eles. Ele não interveio para proteger Beatriz; ele interveio para dominar a cena. Com uma calma cirúrgica, Rafael se aproximou, sua presença drenando o oxigênio do círculo de convidados próximos.

— Eduardo, você sempre teve uma tendência a confundir ambição com inteligência — Rafael disse, sua voz ecoando com autoridade. Ele não mencionou o dossiê. Em vez disso, expôs, com poucas frases, as irregularidades fiscais que Beatriz havia descoberto e entregue a ele. Foi um desmantelamento público e absoluto. Em minutos, a reputação de Eduardo, construída sobre anos de arrogância, foi reduzida a cinzas diante dos olhares da elite paulistana.

De volta à cobertura, o silêncio era absoluto, cortado apenas pelo som do gelo batendo contra o cristal. Rafael olhou para a cidade, desprovido de qualquer triunfo visível.

— Eduardo está liquidado — ele disse, sem se virar. — As contas da holding foram bloqueadas. A vingança que você buscava, Beatriz, está entregue.

Beatriz parou diante da mesa, o peso da vitória esmagador. Ela percebeu, com um horror gelado, que ao destruir Eduardo, ela havia cimentado o poder de Rafael. Ele não era seu aliado; ele era o arquiteto de seu novo cativeiro. Para recuperar sua autonomia total, para se libertar do homem que orquestrou a ruína de sua família, ela teria que destruir o único homem que a mantinha no topo. Ela olhou para as próprias mãos, sentindo a frieza do poder que agora possuía. O contrato de noivado já não importava mais; o que restava era a guerra final.

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