A Máscara de Eduardo
O ar na cobertura de Rafael não era oxigênio; era uma pressão barométrica que tornava cada respiração um exercício de autocontrole. O relógio de parede, uma peça minimalista de design suíço, marcava dez da noite. Lá embaixo, São Paulo brilhava como um circuito integrado, uma rede de contatos e influências que, até pouco tempo, Beatriz dominava. Agora, ela era apenas uma peça no tabuleiro de Rafael.
Ele estava parado junto ao bar, servindo um uísque com a precisão de um cirurgião. Não se virou quando ela entrou. O som dos saltos de Beatriz contra o mármore ecoou, um ritmo seco que parecia marcar o tempo restante de sua autonomia.
— Você vasculhou meu escritório — disse ele, a voz desprovida de surpresa, carregada de uma calma que ela detestava. — Foi audaciosa, Beatriz. Ou talvez apenas desesperada.
Beatriz parou a dois metros de distância. Ela não se deixaria abater pela humilhação. Trazia consigo a pasta de couro negro, o peso do papel em suas mãos sendo a única coisa que equilibrava a balança de poder. O documento que provava o desvio de fundos de Eduardo não era apenas uma arma; era um passaporte para a sobrevivência.
— O desespero é um luxo que você me negou quando destruiu a holding do meu avô — ela respondeu, estendendo a pasta sobre a mesa de mogno. — Isso aqui é a prova de que o seu aliado, Eduardo, é tão podre quanto você imaginou. Ou talvez, tão podre quanto você deseja que ele seja.
Rafael finalmente se virou. O contraste da luz fria sobre seu rosto esculpido revelava uma curiosidade predatória. Ele não afastou a pasta; tocou-a como se testasse a temperatura de uma lâmina.
— Você acha que isso me surpreende? — ele questionou, os olhos fixos nos dela. — Eduardo é um amador. Mas o que você quer em troca, Beatriz? O controle da holding? A autonomia que o contrato de noivado lhe nega?
Beatriz deu um passo à frente, ignorando a atração magnética que ele exercia. Ela abriu a pasta e deslizou os documentos. Não eram apenas provas de desvio; eram rastros bancários que ligavam Eduardo a empresas de fachada com ramificações na estrutura de Rafael. Ela o desarmara, mas, ao ver a satisfação no olhar dele, percebeu que ele a via agora como um desafio a ser domado, não apenas uma aliada.
— Eu quero que os ativos do meu avô sejam retirados da sua disputa de controle — ela declarou, a voz firme, apesar do tremor interno.
Rafael sorriu, um gesto que não alcançou os olhos. Ele pegou os documentos, e Beatriz sentiu que a dinâmica de poder sofrera um abalo sísmico. Antes que qualquer palavra selasse aquele pacto, o som de saltos finos contra o mármore cortou o silêncio.
Helena, a matriarca dos Vasconcelos, surgiu na penumbra, sua presença exalando a autoridade de quem construiu impérios sobre pilhas de segredos. Ela não olhou para o filho. Seus olhos, afiados como bisturis, fixaram-se apenas em Beatriz.
— O jogo está ficando barulhento demais para o meu gosto — disse Helena, a voz destilando uma calma que era uma ameaça. — Rafael sempre teve um apetite voraz por brinquedos que prometem status, mas você, Beatriz, parece ter esquecido que aqui não se negocia com sentimentos. Se negocia com o que se pode destruir.
Beatriz sentiu o sangue pulsar, mas manteve a postura. Helena deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal, e murmurou, num tom que apenas Beatriz podia ouvir:
— Você sabe que ele nunca se casa por amor, não sabe?