Silêncios e Negociações
O ar na cobertura de Rafael era rarefeito, carregado com a eletricidade estática de uma tempestade que se recusava a cair. Beatriz permaneceu parada diante da mesa de ébano, as mãos apoiadas sobre o couro frio da pasta que ela havia recuperado do escritório dele. A verdade sobre a falência de seu avô não era mais uma suspeita; era uma sentença impressa em papéis timbrados que Rafael mantinha como troféu.
Rafael não se moveu. Ele estava encostado na parede de vidro que dava vista para a metrópole, o reflexo das luzes de São Paulo recortando sua silhueta como uma lâmina. Ele observava a hesitação dela com uma calma que era, em si mesma, uma agressão.
— Você arquitetou a ruína da minha família anos antes de me conhecer — disse Beatriz, sua voz firme, despojada de qualquer sombra de súplica. Ela empurrou a pasta pelo tampo da mesa. O som do couro deslizando contra a madeira foi o único ruído na sala. — O noivado não é uma proteção, Rafael. É um seguro para manter a prova do seu crime sob o seu teto, onde você pode me vigiar.
Rafael caminhou lentamente até a mesa. Ele não negou. Não se deu ao trabalho de fingir uma indignação que não sentia. Em vez disso, abriu a pasta, seus olhos percorrendo os documentos com a precisão de um cirurgião revisando um prontuário.
— O mundo dos negócios é uma sucessão de liquidações, Beatriz. O que você chama de crime, eu chamo de consolidação de ativos — ele respondeu, a voz desprovida de remorso. — Mas a holding não foi apenas destruída; ela foi absorvida. E eu sou o único que pode reverter essa fusão sem que o mercado estraçalhe o que restou do seu sobrenome.
Beatriz não recuou. Ela caminhou até o bar, servindo-se de água com a precisão de quem não precisava de álcool para sustentar a própria dignidade.
— Eu não pedi que você me salvasse. Eu assinei um contrato de noivado para conter o assédio de Eduardo. Se você decidiu usar nossa fachada para drenar o que restou do meu legado, a proteção que você oferece tem um custo que eu não pretendo pagar com a minha autonomia. Exijo o controle total das ações remanescentes. Nada de tutelas, nada de assinaturas conjuntas.
Rafael deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Beatriz. Ele não buscou o toque, mas a proximidade forçada impunha uma escolha: ceder ou enfrentar. O calor que emanava dele era um lembrete constante de que, naquela cobertura, ela era, ao mesmo tempo, convidada e prisioneira.
— A autonomia que você tanto preza é uma ilusão enquanto Eduardo estiver rondando — ele murmurou, a proximidade tornando o ar denso. — Ele não quer apenas o divórcio, ele quer a sua aniquilação social. Se eu te der o controle, você se torna um alvo desprotegido. Você é capaz de lidar com os leões que eu mantenho à distância?
O toque do celular, um som metálico e intrusivo, cortou a tensão como uma lâmina. No visor, o nome de Eduardo brilhava com a insistência de quem acredita que ainda detém o controle remoto da vida alheia. Rafael não atendeu. Ele deixou o aparelho vibrar sobre a mesa de ônix até que o silêncio retornasse, mais pesado e denso.
Quando ele finalmente ergueu os olhos, a máscara de magnata calculista havia se estilhaçado, revelando algo muito mais perigoso: uma fome fria e direta. Ele atravessou a sala com passos deliberados e parou diante da porta de entrada. Com um movimento seco, girou a chave na fechadura, o som do metal contra metal ecoando como uma sentença final.
— Você acha que pode jogar dos dois lados, Beatriz? — a voz de Rafael era um murmúrio baixo, mas carregado de autoridade. — Eduardo liga, você treme, e eu ainda sou o vilão que salvou sua reputação diante de toda São Paulo. É exaustivo manter essa farsa de noiva acuada quando suas mãos estão sujas de segredos tanto quanto as minhas.
Beatriz sentiu o sangue pulsar nas têmporas, mas sua postura permaneceu impecável. O medo era um luxo que ela não podia mais pagar. Com um gesto calculado, ela retirou de dentro de seu blazer uma segunda folha, um documento que ela havia ocultado durante a primeira busca. Era a prova irrefutável do desvio de fundos que Eduardo usou para tentar incriminar a própria empresa de Beatriz.
— Eu não tremo, Rafael. Eu espero o momento certo — ela disse, estendendo o documento para ele.
Rafael pegou o papel. Ao ler, um sorriso lento e predatório curvou seus lábios, mas o olhar não era de gratidão; era de uma posse absoluta. Ele se aproximou, o corpo bloqueando qualquer rota de fuga, e trancou a porta da cobertura com um clique definitivo.
— Se vamos ser noivos, Beatriz — ele sussurrou, a mão subindo para tocar, quase imperceptivelmente, o contorno de seu rosto — você precisa parar de fingir que não sente o que está acontecendo aqui.