O Leilão da Escada
O crachá piscou vermelho pela terceira vez em cinco minutos. A porta blindada rangeu, expelindo ar gelado que cheirava a óleo e metal aquecido. Kaelen sentiu o núcleo proibido apertar mais fundo no esterno — cada inalação arranhava como se o parasita estivesse raspando costelas por dentro. Faltavam 14 horas e 39 minutos para a auditoria de integridade transformar sua vitória em banimento definitivo.
Valéria havia lacrado a entrada principal.
Dois seguranças Montez bloquearam o corredor subterrâneo, braços cruzados, neon frio iluminando hematomas recentes no rosto de Kaelen e as veias saltadas em suas têmporas.
— Bronze-3 sem convite assinado não passa. Volta quando tiver crédito, garoto.
Kaelen não respondeu. Seus olhos já mediam o salão além da grade de titânio: mantos bordados em fio de éter, pulseiras exibindo saldos que fariam qualquer família do interior engolir seco. No centro do pódio, o núcleo estabilizador de alta densidade aguardava — a única peça capaz de conter o parasita antes que ele dissolvesse seu sistema circulatório.
Passou o crachá falso de observador credor que Mestre Vane entregara com um sorriso torto. O dispositivo piscou verde. Acesso lateral liberado.
Deslizou pelo corredor de serviço, o latejar no peito descompassado com os passos. Entrou no mezanino estreito reservado aos credores menores: grades metálicas, visão parcial do salão principal, longe dos camarotes de luxo. Dali via Valéria no centro do palco social, pernas cruzadas, queixo erguido como se o leilão fosse apenas mais uma extensão do sobrenome Montez.
O leiloeiro abriu os lotes iniciais. Preços inflados desde o primeiro segundo. Kaelen reconheceu o padrão: lances coordenados espremendo famílias menores para fora antes do item principal. Valéria não queria o núcleo. Queria o vácuo ao redor dele.
O comunicador de osso zumbiu contra o crânio.
— Fala, Vane.
— A Ferro Negro ainda cobra uma dívida antiga dos Montez. Registrada em cartório externo. Plante que Valéria está usando o fundo de linhagem para cobrir atrasos. Credores menores fogem de risco cruzado.
Kaelen engoliu o gosto de ferro. Espalhar aquilo era assinar um atestado de execução social se desse errado. Ficar calado era assinar o banimento.
Circulou pelos boxes de observação. Parou perto de dois credores menores — ternos gastos, pulseiras piscando vermelho. Falou baixo, quase casual:
— Ouvi que a herdeira Montez está atrasada com a Ferro Negro. Usando o fundo de linhagem pra tapar buraco. Se ela perder o controle do lance principal…
Os dois trocaram olhares. Um digitou rápido no comunicador. Minutos depois, saíram discretamente pelas laterais.
Valéria percebeu. Seus olhos atravessaram a multidão até cravarem em Kaelen. O sorriso dela afiou como navalha.
O lote 17 foi anunciado.
Núcleo Estabilizador de Fluxo Alta-Densidade. Lance inicial: 32.000 créditos de Éter.
Valéria abriu com 35.000.
Kaelen esperou dois lances subirem antes de erguer a mão.
— 38.200.
Cabeças viraram. Um riso baixo ecoou nos fundos.
Valéria cobriu sem hesitar.
— 40.000.
O parasita acelerou no peito de Kaelen, como se sentisse o cronômetro apertando. Ele ergueu a mão novamente.
— 42.100. Garantido por contrato futuro assinado com Mestre Vane.
Um murmúrio varreu o salão. Invocar Vane era jogar sujo — e público.
Valéria se levantou no camarote.
— 45.000. E eu cubro qualquer dívida cruzada que tentarem usar contra mim.
O leiloeiro hesitou. Olhou para os representantes de credores externos na primeira fila. Ninguém contestou.
Kaelen respirou fundo. O núcleo proibido queimava como brasa.
— 47.300. Mesma garantia.
Silêncio absoluto.
Valéria abriu a boca. Fechou. Seus assistentes trocaram olhares nervosos.
O martelo caiu.
— Vendido ao observador credor registrado.
Kaelen sentiu o ar escapar dos pulmões. O estabilizador agora era dele. Mas a dívida líquida saltara para +47.300 Fluxo. O parasita pulsou mais rápido, como se comemorasse a vitória sabendo que logo teria mais liberdade para corroer.
As luzes baixaram para transição. Kaelen saiu pelos corredores laterais, evitando a multidão. O cilindro frio pesava contra as costelas. Tempo até a auditoria: 14 horas e 22 minutos.
Passos rápidos atrás dele.
— Você realmente achou que ia sair daqui inteiro?
Kaelen parou. Virou devagar.
Valéria estava a oito passos, flanqueada por dois assistentes de armadura leve. O vestido de combate refletia neon azul. Atrás dela, a vidraça dava vista direta para a Arena Principal. No centro do campo aberto, um mech de calibração 7 girava em teste de rotina, canhões de pulso soltando clarões.
— Parabéns pelo lance vencedor — disse ela, sorriso fino. — Pena que o preço real ainda não apareceu na sua conta.
Antes que Kaelen respondesse, a voz sintética da Academia ecoou pelos alto-falantes:
— Atualização da Escada de Provas. Próximo patamar liberado: Prova de Sobrevivência em Zona Aberta. Eficiência mínima exigida: o dobro do ciclo anterior. Mechs de calibração 7 e superiores. Tempo de preparação: 36 horas. Falha resulta em reset completo de privilégios e banimento da Academia.
O salão inteiro sentiu o golpe. Valéria riu baixo.
— Seu brinquedinho novo chegou tarde demais, Bronze-3.
Kaelen apertou o estabilizador com mais força. Sentiu o parasita reagir ao novo núcleo — um puxão faminto, como se quisesse devorá-lo antes mesmo de ser instalado.
Deu um passo à frente, voz baixa mas firme.
— Ou talvez cedo o suficiente.
Enquanto caminhava para a zona de preparação, o mech de teste soltou um clarão anormal. Um dos braços hidráulicos travou. Faíscas saltaram. O sistema anunciou em vermelho:
— Danos críticos detectados. Calibração suspensa. Zona de prova em lockdown parcial.
Kaelen parou. A pontada no peito virou facada.
A Escada não esperava. E agora nem o mech cooperava.