Chapter 8
A fita amarela tocou a madeira da oficina antes que Lívia conseguisse alcançar o batente.
O agente da fiscalização colou a primeira faixa com um estalo seco, burocrático, como se estivesse fechando uma gaveta — não uma casa. No celular, 14:17. Quatro dias até a venda transferir tudo para mãos hostis; poucas horas até o lacre tomar o imóvel inteiro. Se a porta da oficina fosse selada agora, o Jardim Europa deixava de ser pista e virava rumor.
— Não encosta aí — disse Lívia, entrando no vão entre o homem e a fechadura. — Isso ainda é cenário de investigação.
O fiscal nem ergueu a cabeça. Segurava a prancheta com a calma de quem se apoia em papel para esmagar gente.
— Ordem de recolhimento já formalizada. Procedimento em paralelo. O doutor Caio Menezes avisou por mensagem que qualquer retirada adicional será enquadrada como obstrução.
O nome bateu no quintal como um ferro contra grade.
Dona Nadir saiu da porta principal com o aviso de venda amassado na mão. Não pedia espaço; ocupava. O rosto dela tinha aquela dureza de família antiga quando percebe que a vergonha está tentando entrar pela porta da frente.
— Aqui ninguém fala “retirada” como se a casa fosse caixa de mercado — disse ela. — E ninguém entra sem me olhar na cara.
Bento apareceu no corredor lateral com as mãos vazias desta vez, o que já era um gesto. O maxilar duro denunciava que ele preferia estar em qualquer outro lugar, desde que não precisasse assistir àquilo outra vez.
— Eu falei que vinham com papel — murmurou, sem tirar os olhos da fita amarela. — Papel também lacra gente.
Lívia não respondeu. O celular vibrou no bolso, mas ela não precisou olhar para saber que seria Caio pressionando por fora enquanto a fiscalização prendia a casa por dentro. Ela tinha uma janela estreita: impedir o lacre da oficina antes que a prova sumisse.
— Antes de fechar essa porta — disse ao fiscal —, vocês vão registrar o que falta. Não só o que está aí.
Ele finalmente a olhou. Viu a ficha 14B na mão dela, o comprovante dobrado, o aviso de venda amarelo, e mediu o custo de continuar empurrando.
— Cinco minutos — concedeu. — Depois disso, eu lacro.
Cinco minutos não eram tempo. Eram migalha cara.
Lívia abriu a oficina.
O cheiro veio primeiro: óleo velho, poeira revolvida, madeira arrancada às pressas. A bancada estava fora de ordem, e a gaveta inferior mostrava o fundo falso aberto, escancarado como uma boca que já tinha sido vasculhada. Não havia arquivo, não havia pasta, não havia livro-caixa inteiro. Só a marca do que saiu dali.
O vazio era recente demais para ser acaso.
Ela agachou e passou os dedos pela borda interna. Encontrou um fragmento de papel preso na fresta, úmido de graxa e quase dissolvido. Duas palavras ainda resistiam, tortas: Jardim Europa.
Atrás dela, Bento soltou o ar por entre os dentes.
— Eu vi isso no dia em que mexeram aqui — disse ele. — Caixa leve. Pasta fina. Não era inventário.
Lívia ergueu a cabeça.
— Você viu quem levou?
— Vi o Caio. E vi outro homem com ele. Roupa limpa demais pra oficina. Andava como quem já sabia onde era o escondido.
A confirmação não alivou nada. Só fechou o desenho.
O celular vibrou de novo. Agora ela atendeu.
— Se você mexer em mais uma peça fora do inventário, eu peço a obstrução — Caio falou sem saudação. A voz dele vinha polida demais, o tipo de polidez que esconde ameaça. — Já formalizei o recolhimento.
Lívia apertou o aparelho contra a orelha e deixou a mão livre sobre a madeira quebrada.
— Formalizou antes de saber o que sumiu ou depois?
Silêncio. Curto. Caro.
— Eu não vou discutir meu procedimento com você.
— Vai, sim, se estiver usando procedimento para cobrir retirada de prova.
Do outro lado, ele respirou mais fundo. Não havia pânico; havia cálculo. Caio sempre parecia estar escolhendo a frase que custaria menos amanhã.
Dona Nadir entrou na oficina sem pedir passagem. Parou ao lado da máquina de costura antiga, os olhos corren
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