Chapter 9
A notificação vibrou no celular de Lívia antes mesmo de ela entrar no quintal lateral. Uma linha seca, impessoal, e pior do que qualquer grito: selamento em andamento na casa principal.
Quatro dias para a venda passar tudo para mãos hostis. E agora, menos de horas para perder também o que restava de acesso.
Ela apertou a pasta contra o corpo e atravessou o corredor estreito entre o muro úmido e a goiabeira torta, sentindo no bolso o peso do fragmento carbonado e, na carteira, a ficha 14B dobrada até quase rasgar. A casa parecia respirar curto. Lá dentro, Dona Nadir tinha ficado com a cópia da anotação do livro-caixa; Bento tinha jurado ter visto Caio Menezes e outro homem sumirem com uma pasta fina na direção do Jardim Europa. O que sobrava para Lívia era correr atrás da prova antes que alguém fechasse a porta no rosto dela.
O telefone vibrou de novo.
Caio.
Ela atendeu sem saudação.
— Dra. Azevedo — a voz dele veio baixa, limpa, sem pressa. Um tom de gabinete que sabia onde encostar para doer. — O registro da vistoria já foi encaminhado. Se houver material fora do inventário, o procedimento muda.
Lívia parou um segundo sob a sombra do muro. Do outro lado da linha, ele parecia muito confortável com a palavra “procedimento”.
— Você está me ligando para me ameaçar ou para confessar alguma coisa?
— Estou lhe dando uma chance de não piorar o que já está ruim.
Ela soltou um riso sem humor.
— Engraçado. Você sempre aparece quando a casa está prestes a ser lacrada.
Houve uma pausa mínima, quase elegante demais.
— Porque você insiste em tratar como coincidência o que já virou prova contra você.
Lívia fechou a mão no celular. Queria desligar. Queria devolver a ele alguma coisa afiada. Mas Caio nunca ligava para ouvir. Ligava para empurrar a conversa para um ponto em que ela perdesse terreno.
— Fala logo.
— Se o material não inventariado não for entregue hoje, eu protocolei busca formal. E antes que decida bancar a heroína, considere a consequência: apreensão, obstrução, e a sua tia respondendo por retenção de documento público se continuar escondendo coisa da fiscalização.
Dona Nadir nem era sua tia. Mas Caio sabia exatamente como usar o parentesco falso para ferir a parte certa da frase.
Lívia sentiu o sangue subir, não de raiva cega, mas daquela lucidez fria que vem quando alguém tenta apertar a família como pretexto.
— Você não toca nela.
— Eu toco no processo. O resto é você que está misturando.
A ligação caiu sozinha, como se ele tivesse recostado o aparelho e deixado a ameaça pairando por conta própria.
Lívia ficou um segundo imóvel, ouvindo o chiado morto da linha. Busca formal. Hoje. Não mais no fim da tarde. Não mais “se necessário”. Hoje.
Quando voltou a andar, já tinha a decisão no corpo.
Na cozinha, Dona Nadir estava de pé, a cópia do livro-caixa aberta sobre a mesa de madeira, a ponta do dedo cravada numa linha torta como se aquilo fosse o último prego da casa. O lenço na cabeça estava deslocado, e o rosto dela tinha endurecido num tipo de cansaço que não pedia consolo.
Bento ocupava a porta, braços cruzados, as costas largas bloqueando metade da luz do corredor. O homem parecia pronto para ir embora e, ao mesmo tempo, pronto para impedir qualquer saída que fosse errada.
— Ele ligou? — Nadir perguntou sem levantar a cabeça.
Lívia assentiu.
— Quer busca formal hoje.
Bento soltou um palavrão baixo, espremido entre dentes.
Nadir puxou a folha um pouco mais para perto.
— Então ele já está correndo com a compra e com a polícia no mesmo pé.
Lívia não respondeu de imediato. Em vez disso, estendeu a mão para o papel. A anotação era pior do que ela lembrava: saída de caixas, acerto antes da morte antiga, uma rubrica abreviada no fim, truncada por um risco como se alguém tivesse tentado apagar sem apagar o suficiente. Aquilo não era recibo. Era rastro.
— O nome abreviado — ela disse. — Você acha que é de quem?
Dona Nadir hesitou, e a hesitação dela tinha mais peso do que qualquer resposta rápida.
— Não é nome de quem carrega caixa. É nome de quem manda carregar.
Bento descruzou os braços.
— Ou de quem recebe a caixa depois.
Lívia baixou os olhos para a linha. O acerto estava registrado antes da morte antiga. Antes de todo mundo repetir a versão conveniente. Antes do acidente virar lenda de família e o luto ser usado como tampa.
Ela cruzou a rubrica com a linguagem de descarga que já tinha visto no cais, com as etiquetas de frete, com a ordem seca dos homens que não escrevem por gosto, escrevem por necessidade. A sigla não era assinatura bonita. Era código de movimentação.
— Isso veio do cais — ela murmurou.
— Eu disse — Bento respondeu. — Caixa que sai sem entrar não é estoque. É sumiço.
Dona Nadir ergueu o olhar, firme.
— E sumiço não acontece sozinho.
Foi nesse instante que Lívia entendeu o que a anotação realmente fazia. Não apenas ligava a casa a uma saída de caixas. Ligava a casa a uma cadeia de repasses. Um nome puxando outro. Um intermediário. Alguém com acesso. Alguém que não tinha motivo para mexer em papel velho, a não ser que o papel ainda queimasse.
Ela passou o dedo sobre a rubrica sem tocar de verdade.
— O Jardim Europa não é só o destino. É a etapa seguinte.
Bento fez uma careta, confirmando com o silêncio antes de falar.
— Vi os dois indo pra lá. Caio e o outro. Pasta fina. Não era caixa. Era coisa que se carrega junto do corpo, como quem não quer chamar atenção.
A palavra “pasta” pareceu arranhar o ar da cozinha.
Lívia lembrou do compartimento vazio na oficina, limpo demais para ser ausência antiga. Vazio de retirada recente. Alguém tinha passado por ali com pressa e precisão. Não para procurar. Para levar o que já sabia encontrar.
— Você viu o rosto do outro homem? — ela perguntou.
Bento balançou a cabeça.
— Não. Mas vi a pressa. E vi Caio olhando para trás como quem queria ter certeza de que ninguém estava vendo o que não devia.
Dona Nadir fechou a cópia do livro-caixa com um gesto curto.
— Se ele está apertando hoje, é porque o que tiraram de casa não pode ficar escondido muito
Preview ends here. Subscribe to continue.