Chapter 7
Quando Lívia empurrou o portão de ferro, o papel amarelo já tremia na mão do agente da fiscalização como uma sentença pronta para ser pregada na parede da casa. Ele não esperou ela atravessar o vão.
— Ordem de lacre e recolhimento — disse, sem levantar a voz. — Procedimento formal já acionado.
Lívia sentiu o gosto do café velho na boca, ainda queimado da caneca que tinha largado meia hora antes. Quatro dias para a venda. Menos de horas para a casa virar caixa fechada, porta selada, memória inventariada por gente que nunca dormiu ali. O relógio não estava correndo; estava mordendo.
Dona Nadir surgiu na soleira da sala de entrada com a coluna reta de quem já tinha gastado a idade inteira aprendendo a não ceder. A mão dela apertava um pano de prato dobrado como se fosse uma bandeira de resistência. Não havia tremor no rosto, mas havia uma dureza baixa, antiga, daquelas que a fome e o luto deixam quando a dignidade já foi testada demais.
— Aqui ninguém recolhe nada sem me olhar no olho — disse.
Atrás do agente, do lado de fora do gradil, Caio Menezes apareceu com a camisa impecável demais para aquela manhã de cais. O rosto tinha o controle de sempre, só que mais tenso, como se ele estivesse prendendo as próprias costuras para não abrir na frente de todo mundo. Ao ver Lívia, não tentou fingir surpresa.
— Eu só dei entrada no que cabia fazer — falou. — O resto é competência do órgão.
Competência. A palavra veio limpa, polida, quase educada. E por isso mesmo bateu nela como provocação.
Lívia ergueu a ficha 14B antes que a raiva lhe roubasse a precisão.
— E eu dei entrada na investigação. Com protocolo, registro e autorização para acesso ao material ligado à morte antiga. Se vocês lacrarem essa casa agora, enterram prova junto.
O agente da fiscalização leu a ficha sem pressa, mas também sem simpatia. Olhou o número, a assinatura, a referência ao ponto de apoio no Jardim Europa, e devolveu como quem devolve uma peça que ainda pode ser útil.
— Isso não suspende o recolhimento — disse.
— Suspende por algumas horas, se você souber ler — respondeu Lívia.
Nadir fez um som curto com a língua, de impaciência e aviso. Era o tipo de som que, na família, significava: não me faça pedir em público o que eu posso exigir em particular.
— Ele quer entrar — ela murmurou para Lívia, sem tirar os olhos de Caio. — O que ele quer não é papel, é o que a casa engoliu.
Caio moveu a cabeça um centímetro, o bastante para negar sem negar.
— Dona Nadir, ninguém está aqui para ferir ninguém. Só não compliquem o que já está fora de controle.
— Fora de controle para quem? — Lívia rebateu.
Ele não respondeu de imediato. O agente ao lado dele, talvez por instrução, talvez por pressa, estendeu a mão na direção da entrada.
— Precisamos fazer o registro visual dos cômodos, e recolher o que não foi inventariado. A ordem pode ser cumprida ainda hoje.
Hoje. A palavra atravessou a varanda e entrou na sala como vento frio. Antes do pôr do sol, a casa podia estar selada. Antes do pôr do sol, tudo o que ainda restava escondido podia virar item de prateleira, sacola numerada, prova vencida.
Lívia respirou fundo, sentindo a febre que sempre vinha quando a ameaça deixava de ser abstrata. O objetivo era simples de dizer e difícil de sustentar: segurar a casa por tempo suficiente para tirar a prova de dentro dela sem dar ao processo uma justificativa para esmagá-los de vez.
Só que a casa já estava sangrando por três frentes: a fiscalização na porta, Caio com o processo na mão, e Nadir com a memória no meio como se memória pudesse ser blindagem.
— Quarenta minutos — Lívia disse, medindo o agente pelo olho. — É o intervalo mínimo para conferência do material da investigação. Depois vocês registram o que quiserem.
— Eu não trabalho com concessão de quarenta minutos — ele respondeu.
— Hoje você trabalha.
Ela colocou a ficha 14B quase no peito dele. Não como ameaça, mas como peso concreto de um sistema que podia ser acionado contra eles e, talvez por isso mesmo, também podia ser cobrado. O agente leu outra vez. O rosto continuou neutro, mas os dedos dele deram um micro ajuste na borda do papel. Havia ali uma fresta.
Caio percebeu.
— Lívia — ele disse, com uma calma cuidadosamente montada —, você está tentando transformar procedimento em favor pessoal.
— Não. Estou tentando impedir que você use procedimento como martelo.
Nadir soltou um riso sem humor.
— Martelo, não. Eles querem é a chave e a assinatura. Depois chamam de ordem.
A frase bateu na varanda como se tivesse sido dita por alguém que conhecia aquele tipo de ataque desde antes de qualquer papel timbrado. Lívia viu, então, a vergonha de Caio passar pelo rosto dele em um lampejo rápido demais para virar arrependimento. Ele sabia mais do que dizia. Sabia o suficiente para estar preso ao lado errado da mesa sem conseguir se levantar dela.
A tensão não ficou no portão. Ela entrou junto com o ar.
Bento surgiu do corredor lateral com o passo duro de quem vinha da oficina e ainda carregava o cheiro de graxa nas mãos. Não olhou para ninguém até chegar perto de Lívia.
— Achei o que faltava — falou baixo.
A resposta estava em um embrulho de pano sujo, meio escondido sob o braço. Pequeno, mas pesado o bastante para mudar a sala de eixo.
Lívia não precisou perguntar. Seguiu Bento de relance até a mesa da entrada. Nadir puxou a cadeira com o pé para abrir espaço, sem admitir que estava com medo. O agente da fiscalização observou tudo como quem anota uma prova de resistência.
Bento abriu o pano. De
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