A Estratégia da Sucata
O V-7 não gemia; ele gritava. O som metálico de engrenagens desajustadas ecoava pelo hangar como o estertor de uma besta ferida. Kael, com os braços cobertos por uma camada de graxa sintética e sangue seco, ajustava os estabilizadores térmicos enquanto o cronômetro no visor do cockpit marcava 21 horas e 48 minutos para o duelo de vida ou morte. O sistema de refrigeração estava em frangalhos, operando a trinta por cento da capacidade. Se ele entrasse na arena naquele estado, o módulo proibido transformaria o cockpit em um forno antes mesmo do primeiro disparo.
Ele não podia contar com a equipe de manutenção. Eles eram extensões dos olhos do Conselho, e Kael já tinha sorte demais por não ter sido preso após a última inspeção técnica.
— Kael, pare — Mestre Aris rosnou, vigiando a porta blindada com uma chave inglesa pesada, o rosto marcado pela tensão. — O Conselho está monitorando a rede do hangar. Se você puxar mais energia, eles vão detectar a anomalia do módulo. Eles não querem consertar o seu Mech; eles querem o seu segredo.
— Se eu não consertar o resfriamento, o módulo vai me matar antes que eles cheguem perto — Kael respondeu, a voz rouca. Ele deslizou para fora do chassi. — Preciso de uma placa de blindagem de alta densidade. Algo que dissipe o calor residual. O Setor de Descarte tem o que eu preciso.
— É suicídio. A patrulha da facção de Lívia está varrendo a zona de descarte agora mesmo. Eles estão caçando qualquer peça que possa ter sido 'desviada'.
Kael não respondeu. Ele já estava correndo em direção à cicatriz industrial no limite da Arena Central. Ali, os restos de Mechs que o sistema declarara 'perdidos' eram triturados para alimentar a fornalha de dívidas da Academia. O ar era denso, carregado de ozônio e ferrugem. Enquanto vasculhava pilhas de carcaças retorcidas, o alerta de proximidade do visor disparou. Um Mech de patrulha da facção de Lívia varria os destroços com sensores térmicos de precisão cirúrgica.
Kael se agachou sob uma estrutura de titânio, o coração martelando contra as costelas no ritmo das engrenagens de seu próprio Mech. Ele não podia recuar. Usando uma manobra de sobrecarga controlada no módulo proibido, Kael mascarou sua assinatura térmica, transformando seu calor residual em ruído estatístico. O Mech de patrulha passou a centímetros, os sensores enganados pela distorção. Kael avançou, arrancando uma placa de blindagem reforçada de um chassi que, pelo selo de série, pertencera a um piloto declarado morto há anos. A prova estava ali: o sistema não apenas descartava Mechs, ele os forjava para o fracasso. Ele encontrou um log de batalha parcial, um registro de quinze anos atrás, escondido sob a blindagem.
De volta ao hangar, Kael integrou os dados brutos ao núcleo do V-7. Enquanto o cursor piscava em verde, a verdade se revelou: o sistema da Arena silenciara o Mech de seu pai propositalmente. Ele não fora um fracassado; fora sabotado pela própria fundação da Arena.
O painel de comunicação chiou, cortando o silêncio com a voz gélida de Lívia.
— Kael, pare de brincar no lixo. Duelo de treino. Agora. Se você perder, sua vaga na Academia acaba hoje. A aposta é o seu lugar aqui.
Kael sentiu o peso do módulo proibido pulsar em sincronia com o código de rede da Arena. Ele não era apenas um amplificador; era uma chave mestra. Ele ocultou o log de batalha sob uma camada de criptografia, sabendo que a verdadeira batalha não seria na arena, mas na fundação da mentira que mantinha todos eles acorrentados. O jogo havia mudado; ele não estava mais lutando apenas por sobrevivência, mas por vingança.