O Preço da Ascensão
O visor do V-7 piscava em um vermelho agressivo, um lembrete constante de que a glória de ontem era a dívida de hoje. Kael sentiu o impacto do silêncio no hangar. Não era a calmaria habitual; era a ausência forçada de fluxo. Ele inseriu o cartão de acesso no terminal de abastecimento, mas a tela respondeu com uma mensagem gélida em letras douradas: ACESSO NEGADO. CÓDIGO DE SANÇÃO: LÍVIA-0998. RECURSOS BLOQUEADOS POR INADIMPLÊNCIA TÉCNICA.
— Estão nos drenando, Kael — a voz de Mestre Aris soou rouca, vindo debaixo do chassi do V-7. Ele deslizou para fora, as mãos sujas de graxa sintética. — Lívia não quer apenas te derrotar na arena. Ela quer que o V-7 morra por inanição antes que você chegue ao próximo duelo.
Kael bateu o punho contra o painel. O brilho azulado do módulo proibido, instalado no núcleo do Mech, pulsava em sincronia com sua própria frustração. O sistema da Academia estava em alerta parcial, farejando qualquer flutuação energética suspeita. Se ele tentasse forçar o terminal, o alarme dispararia e a equipe de manutenção, já a caminho, teria a prova física que Lívia tanto buscava.
— Vinte e quatro horas — Kael murmurou, seus olhos fixos na contagem regressiva projetada no visor. — Se eu não entrar na arena amanhã, o confisco é automático.
O cheiro de ozônio e metal queimado impregnava o ambiente. Kael limpou o suor frio da testa. O módulo proibido não era um componente comum; ele exigia um sacrifício de estabilidade. Enquanto Aris ajustava uma válvula de pressão com mãos trêmulas, Kael mergulhou no código de fluxo. A facção de Lívia tinha cortado o suprimento de alta octanagem, deixando apenas uma mistura impura e barrenta que faria qualquer motor comum engasgar e morrer.
— Se eu sobrecarregar o conversor de energia — Kael murmurou, os dedos voando pelo painel tátil — posso forçar o módulo a emitir um ruído branco de fundo. Uma falha de sistema simulada. Se a assinatura azul for mascarada como um erro de leitura, os sensores da Academia vão ignorá-la como ruído estatístico.
— Isso vai fritar os circuitos de resfriamento em segundos — Aris rebateu, mas o brilho nos olhos de Kael não era de medo, era de cálculo. O V-7 rangeu, um protesto metálico que ecoou pelo hangar vazio. Eles não tinham escolha.
Na Arena de Provas, horas depois, o ar estava carregado com o cheiro de ozônio e suor metálico. Lívia observava das arquibancadas superiores, sua postura impecável contrastando com a sujeira do hangar onde Kael lutava por cada grama de combustível. Ela não precisava sujar as mãos; bastava um comando na rede de suprimentos para estrangular o V-7.
— Vamos ver quanto tempo esse ferro-velho aguenta sob pressão real, Kael — ela sussurrou, a voz amplificada pelo sistema de som da arena.
A gravidade no quadrante de Kael saltou para 1.5G. O V-7 gemeu, as juntas hidráulicas rangendo como ossos sob tortura. O Mech inclinou-se, o peso do chassi puxando-o para o solo, enquanto o oponente de Lívia — um piloto de rank superior com uma armadura reforçada — avançava com um sabre de plasma em arco.
Kael não podia recuar. Ele ativou o modo de otimização em tempo real. O brilho azulado do módulo explodiu em intensidade, ignorando os avisos de superaquecimento que inundavam seu visor. O V-7, antes um amontoado de sucata instável, subitamente reagiu com uma fluidez impossível. Ele não estava mais apenas lutando; ele estava reescrevendo o combate, transformando a sobrecarga energética em uma manobra de aceleração que desafiava a gravidade artificial da arena. O público, antes silencioso, começou a murmurar. Lívia, pela primeira vez, apertou o corrimão da arquibancada com força suficiente para branquear os nós dos dedos. O próximo duelo não seria apenas uma questão de sobrevivência; seria o momento em que a hierarquia da Academia começaria a ruir.