Arena de Sangue e Créditos
O Hangar 4 cheirava a ozônio e metal velho. Kael observava o visor do V-7, onde a assinatura energética do módulo proibido pulsava em um azul doentio, desafiando a integridade dos circuitos de fábrica. Faltavam menos de oito minutos para o teste de recall. Os passos rítmicos da equipe de manutenção da facção de Lívia ecoavam pelo corredor, pesados como uma contagem regressiva para a sua expulsão.
— Estão vindo, Kael. Se eles detectarem essa frequência, você será processado por sabotagem — sussurrou Mestre Aris, os nós dos dedos brancos de tanto apertar uma chave inglesa.
Kael não desviou o olhar. Seus dedos dançavam pelo console, sobrepondo o sinal anômalo com o ruído de fundo da rede da Academia. Ele precisava de uma distração.
— Vou forçar um curto nos circuitos secundários — decidiu Kael. — Se eu criar uma sobretensão nos dissipadores, o sistema vai ler como um erro de drenagem comum em sucatas.
O estalo do curto-circuito foi seguido pelo cheiro acre de plástico queimado. Quando a equipe de elite passou pelo hangar, desdenhando do "sucateiro", eles não notaram que o V-7, mascarado por uma falha simulada, operava em um nível de eficiência impossível. O sistema de segurança registrou o erro, mas não a anomalia. Kael sobreviveu ao recall por um fio.
Horas depois, o ar na Arena Principal estava saturado pelo cheiro de óleo e pela tensão das arquibancadas. O V-7 tremia, o módulo pulsando sob a blindagem torácica. O visor piscava: Instabilidade Energética – Risco de Colapso 74%. À sua frente, o Mech da facção de Lívia, um modelo de elite, avançou com precisão insultuosa. O piloto, um bolsista de alto escalão, disparou uma rajada de projéteis térmicos.
— Vamos ver o quanto essa sucata aguenta — zombou o oponente pelo canal aberto.
Kael ignorou o aviso de superaquecimento. Ele injetou o excedente de carga do módulo nos propulsores. O V-7 disparou para o lado com uma velocidade que desafiava a física. O golpe do oponente atingiu apenas o concreto, estilhaçando-o. Em um movimento fluido, Kael girou o chassi, canalizando a energia azul para o braço direito, onde uma lâmina de sucata reforçada brilhou com a sobrecarga. Com um movimento técnico e brutal, ele desarmou o Mech de elite, imobilizando-o com um golpe preciso no atuador do joelho. O silêncio na arena foi absoluto antes de ser quebrado por um rugido coletivo.
O placar da arena atualizou: Kael, Rank 998. O público, antes silencioso, começou a entoar seu nome. Lívia observava das sombras, sua expressão mudando de desdém para ódio puro. Kael desceu do cockpit, as pernas tremendo de exaustão. Ele mal teve tempo de respirar antes que Lívia surgisse no corredor de acesso, o som de seus saltos contra o metal soando como uma sentença.
— Parabéns, sucateiro — disse ela, a voz cortante. — Rank 998. Quase dá para sentir o cheiro da ralé subindo.
Kael parou, encarando-a. — Você veio pessoalmente me dar os parabéns?
Lívia não sorriu. — Não se iluda. Acabei de bloquear o acesso da sua unidade ao combustível de alta qualidade da Academia. Você tem 24 horas para vencer o próximo duelo, ou seu V-7 será confiscado por inadimplência. Boa sorte tentando lutar com o tanque vazio.