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Chapter 10: A Verdade Sobre o Módulo

Kaelen remove o rastreador de Sora em meio ao colapso térmico do chassi enquanto a Facção Aegis invade a arena para confiscar o Módulo X. Um pulso descontrolado revela publicamente a assinatura proibida do módulo, expondo o segredo e virando a plateia contra os agentes. Vane ganha tempo precioso, mas a pressão se torna inescapável. Kaelen foge para o corredor de manutenção e aceita a oferta relutante de Sora para escapar pelo túnel antigo, selando uma aliança provisória e instável que abre um novo patamar de perigo contra a facção governante.

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A Verdade Sobre o Módulo

O calor devorava a cabine como boca de fornalha. Kaelen sentia o cheiro acre de isolante derretido misturado ao suor que escorria pelos olhos. A perna esquerda do chassi estava morta — servomotores fritados —, e o braço esquerdo respondia com meio segundo de atraso, como se o metal tivesse bebido. No holograma tático, o contador térmico piscava em vermelho vivo: 74 segundos até o shutdown irreversível.

Ele abriu o painel interno com os dentes travados. Dedos trêmulos puxaram o cabo de fibra óptica que ainda cuspia faíscas azuis. Cravado no barramento principal como um carrapato de platina brilhava o rastreador de Sora — um cubo de três centímetros que nenhum diagnóstico da academia registrava.

— Sua vadia de elite… — rosnou ele, encaixando a ferramenta improvisada.

A primeira torção fez o núcleo tossir uma onda de calor que queimou os pelos do antebraço. O Módulo X reagiu no mesmo instante: linhas de código defensivo cascatearam no HUD, tentando isolar o invasor. Mas o rastreador já tinha raízes profundas. Arrancá-lo à força arrancaria metade do núcleo junto.

Lá fora, a multidão ainda rugia. O som chegava abafado pelo casco, mas as palavras cortavam claro:

— Desonra, Sora! — Deixem o Sucateiro lutar! — Covarde de sangue limpo!

A plateia tinha virado. Pela primeira vez, o nome dele era grito de apoio. Mas apoio não resfriava um reator em colapso.

O canal privado de emergência crepitou.

— Voss. Quarenta segundos antes dos sensores da arena voltarem. Eu cortei o circuito principal. Use agora ou perca tudo — disse Vane, voz seca como sempre.

Kaelen não respondeu. Enfiou a ferramenta mais fundo. O rastreador soltou um chiado agudo. Alerta vermelho cortou o HUD: Integridade do núcleo comprometida em 17%. Se puxasse agora, o Módulo X entraria em cascata. Se deixasse, a facção leria cada byte em segundos.

Então as portas principais da arena explodiram em movimento. Quatro agentes da Facção Aegis entraram com passos pesados, uniformes cinza-escuros refletindo as luzes de emergência. O líder ergueu a mão enluvada.

— Cadete Kaelen Voss. Desligue o chassi e desça. Agora.

O termômetro interno marcava 192 °C no núcleo secundário e subia rápido. A perna esquerda pendia solta, soltando fumaça preta fina. Kaelen abriu o canal de manutenção pública — visível para toda a arena — e digitou a sequência de sobrecarga controlada.

O Módulo X respondeu com um ronco grave que fez o chassi inteiro tremer. Um pulso de energia varreu os sistemas próximos, corrompendo os logs que os agentes puxavam. Mas o pulso escapou do controle.

Uma assinatura energética proibida — linhas geométricas azuis que ninguém na Cúpula deveria reconhecer — projetou-se no holograma central da arena por quatro segundos inteiros antes de colapsar.

Silêncio absoluto.

Depois, o caos.

— Tecnologia Aegis roubada! — Módulo X confirmado! — Ele está usando protótipo governante!

O líder dos agentes girou o rosto para a plataforma de observação.

— Instrutor Vane. Seu cadete cometeu violação classe-1. Entregue os logs completos ou extrairemos à força.

Vane cruzou os braços, imóvel.

— Vocês já têm a assinatura. O que mais querem do garoto?

— O piloto. Vivo. E o módulo intacto.

Kaelen sentiu o estômago apertar. O segredo estava nu. Não havia mais como alegar falha mecânica ou erro de calibração. O Módulo X era agora prova viva de traição máxima — tecnologia da linhagem governante, roubada e enxertada num sucateiro de baixo rank.

Ele forçou o chassi a se mover. A perna direita rangeu alto, mas obedeceu. Arrastando a esquerda morta, começou a recuar para a saída lateral de manutenção. Os agentes ergueram os rifles de pulso.

— Pare onde está, cadete.

Kaelen ignorou. Abriu novamente o canal público.

— Querem o módulo? Venham arrancar do meu cadáver.

A multidão explodiu. Cadetes de ranks médios se moveram, formando uma barreira improvisada que atrasou os agentes. Não era revolta organizada — era raiva crua contra quem sempre trancava a escada para quem não nascia no topo.

Kaelen aproveitou a brecha. Empurrou o chassi pelo corredor escuro. O braço esquerdo pendia inútil, cabos faiscando. O termômetro chegou a 97% de sobrecarga térmica. Um minuto e meio. Talvez menos.

Então ele a viu.

Sora estava parada na passarela superior, o mecha dela estacionado como um monumento intocado. Braços cruzados. Olhos fixos nele através das câmeras externas.

Ela desceu a escada lateral em passos rápidos e parou a dez metros do chassi danificado. A voz dela cortou clara no canal aberto.

— Você realmente acha que vai escapar com isso?

Kaelen soltou uma risada rouca, seca.

— Acho que você não quer que eles levem. Não antes de descobrir como ele funciona de verdade.

Sora hesitou. Pela primeira vez, Kaelen viu algo além de desprezo puro nos olhos dela: cálculo frio misturado com um lampejo de medo.

Os agentes se aproximavam pelo corredor principal, armas erguidas. O oficial gritou:

— Rendam-se ou abrimos fogo!

Sora olhou para os agentes, depois para Kaelen, depois para o chassi que mal se sustentava de pé.

Ela estendeu a mão.

— Setor proibido 7-C. Túnel de evacuação antiga. Se conseguir chegar lá, eu mostro a saída.

Kaelen piscou, suor ardendo nos olhos.

— Por quê?

— Porque se eles pegarem esse módulo, ninguém mais sobe nessa porra de academia. Nem eu. Nem você. E eu ainda não terminei de te esmagar do meu jeito.

O reator tossiu uma nuvem de vapor superaquecido. O chassi rangeu como se fosse se partir.

Kaelen estendeu o braço direito danificado. Os dedos metálicos se fecharam ao redor da mão dela.

A rival de ontem era, naquele momento, a única esperança de hoje.

Eles desapareceram no corredor escuro enquanto os primeiros disparos de pulso ricocheteavam nas paredes atrás, ecoando como o fim de uma era e o começo de outra bem mais perigosa.

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