A Última Fronteira
O alerta térmico rasgava o cockpit como faca em carne viva. 98,9%. A perna esquerda do chassi arrastava faíscas pelo piso gradeado do corredor 7-C, cada metro um castigo. Kaelen sentia o calor subir pelas costas, queimando até a nuca. Atrás deles, o ronco grave dos mechas pesados da Aegis fazia as tubulações tremerem. Luzes vermelhas de varredura lambiam as paredes curvas, caçando assinatura.
— Mais rápido! — Sora gritou pelo canal aberto, voz afiada.
O chassi dela, azul-cobalto impecável, deslizava entre as tubulações como se o túnel tivesse sido feito pra ele. Kaelen sentia o contraste como humilhação física: o dela cantava, o dele engasgava fumaça preta.
— Não dá — ele rosnou. — Joelho trava em modo de segurança. Mais 2% e implode.
99,2%. Desativação em 41 segundos piscava no HUD do Módulo X.
Sora freou de repente, girou o torso e disparou duas rajadas curtas contra o duto superior. Metal explodiu em cascata de faíscas, bloqueando parcialmente a visão dos perseguidores.
— Você tem 18% sobrando no Módulo. Usa. Agora.
Kaelen rangeu os dentes. Apertou o gatilho de override. O Módulo X respondeu com um rugido rouco. Linhas azuis geométricas Aegis dançaram pelo cockpit. O chassi ganhou impulso brusco, a perna morta erguendo-se por pura força bruta. Eles dispararam adiante. Atrás, berros metálicos de frustração ecoaram.
Chegaram à escotilha blindada do setor proibido. Sora digitou o código antigo que só herdeiros conheciam. A porta rangeu e abriu. Eles entraram. A escotilha selou com um baque surdo.
Mas o som dos mechas pesados ainda atravessava o metal. O tempo para reparo despencou para menos de cinco minutos.
O cheiro de isolante queimado sufocava o ar do setor proibido 7-C. Kaelen deixou o chassi cair de joelhos diante da plataforma enferrujada. Braço esquerdo pendia com atraso de meio segundo. 96,8% de sobrecarga. Sora apontou a lanterna de pulso para a estação Ômega-9.
— Conecta. Rápido.
Ele encaixou o cabo grosso. A tela acordou com estalos. Kaelen digitou o override roubado de Vane. O Módulo X respondeu.
Sora ficou ao lado dele, olhos fixos na tela.
— Mostra logo o que você realmente é.
Kaelen ativou simulação parcial. Um holograma se ergueu: linhas geométricas azuis reescrevendo camadas de um ranking inteiro. Não era amplificação. Era reescrita. O módulo não melhorava performance — ele apagava e redefinia assinaturas energéticas, hierarquias, logs públicos. Um disruptor de rede em escala de academia.
Sora ficou imóvel. A voz saiu baixa.
— Se isso funcionar… a hegemonia da minha própria facção acaba. E a minha posição junto.
Kaelen olhou para ela.
— Você ainda pode me entregar.
Ela respirou fundo.
— Se eu te entregar agora, eles apagam o módulo e tudo volta ao que era. Eu fico em cima… mas o teto continua de vidro. — Ela encarou os olhos dele. — Eu quero ver até onde isso vai.
O holograma piscou. Contagem térmica: 97,1%. Faltavam quatro minutos.
A escotilha explodiu para dentro. Três mechas pesados Aegis invadiram a câmara, canhões de plasma já brancos de calor. O ar chiava.
Kaelen girou o torso danificado. A perna esquerda ainda arrastava. Sora se colocou à frente, cobrindo o flanco vulnerável.
— Eu cubro você. Ativa o pulso.
Não havia espaço para orgulho. Kaelen mirou o Módulo X no centro da formação inimiga. O módulo rugiu. Linhas azuis explodiram em pulso cegante. Os sensores dos três Aegis fritaram por 14 segundos exatos.
Sora avançou como lâmina. Dois disparos precisos abriram brechas na blindagem do mecha central. Kaelen, com braço esquerdo atrasado, acertou o núcleo exposto. O mecha caiu em silêncio.
Os outros dois recuaram, atordoados. O custo apareceu no HUD: sobrecarga saltou para 98,4%. Peças do Módulo X começaram a fumegar dentro do peito.
Sora ofegava no canal.
— Eles vão chamar reforços pesados.
Ela estendeu a mão metálica do cockpit na direção dele.
— Se vamos cair… caímos lutando juntos.
Kaelen hesitou um segundo. Depois apertou a mão dela. Metal contra metal. A rival de ontem era, naquele instante, a única esperança de hoje.
O núcleo zumbia como coração prestes a explodir. 97,6%. Kaelen posicionou o chassi diante do núcleo de conexão central. Sora ficou de guarda na escotilha.
— Agora ou nunca — disse ela.
Vane surgiu no canal de emergência.
— Vinte e oito segundos até os pesados atravessarem o portão externo. Façam ou sumam.
Kaelen iniciou a sequência de disruptor em massa. O Módulo X entrou em sobrecarga total. Linhas azuis geométricas explodiram por todas as telas públicas da Cúpula.
O ranking começou a dançar. O identificador de Kaelen disparou: 187 → 94 → 41 → 19 → 7 → 3. Terceiro lugar temporário. Sora manteve o segundo. A assinatura Aegis proibida se espalhou como vírus pelas telas da academia inteira.
A multidão nas arquibancadas gritava. Monitores mostravam dezenas de mechas da facção atravessando os portões principais. O horizonte se enchia de blindagem negra.
O chassi de Kaelen entrou em shutdown de emergência. As luzes do cockpit escureceram. Ele tombou para frente. Sora saltou do próprio mecha e o segurou fisicamente, braços envolvendo o torso danificado para impedir a queda completa.
— Aguenta — murmurou ela.
Nos monitores, o ranking ainda piscava. Mas o horizonte estava cheio. A verdadeira guerra tinha começado.