A Máscara Cai
O cheiro de ozônio e metal superaquecido impregnava o cockpit, uma mistura nauseante que marcava o limite da minha sobrevivência. No console central, a barra de progresso do protocolo de segurança da Academia brilhava em um vermelho pulsante: 85%. Se chegasse a 100%, a assinatura energética residual do Módulo X seria registrada como uma anomalia de nível militar, e eu seria confiscado antes mesmo de o sol atingir o topo da Cúpula.
— Vamos, seu pedaço de sucata desgraçado — sussurrei, meus dedos dançando sobre o painel com a destreza de quem já viveu de consertos improvisados. O Módulo X, acoplado ilegalmente à espinha dorsal do meu chassi, emitia um calor que fazia as paredes de titânio estalarem. O sistema de refrigeração soltava um lamento metálico agudo. Eu não tinha mais margem para ajustes finos; se tentasse apagar os logs, o protocolo detectaria a tentativa de intrusão. A única saída era o caos. Injetei um código de erro corrompido, forçando o sistema a uma reinicialização de emergência. A tela piscou, o vermelho deu lugar a um cinza estático por breves segundos. Eu tinha uma janela de trinta segundos.
Antes que a inércia do silêncio fosse quebrada, o estrondo das botas do Instrutor Vane contra a bancada ecoou pelo hangar. Ele não pediu licença; puxou o cabo de interface do meu mecha antes que eu pudesse reagir.
— A lataria está vibrando, cadete. O registro de energia está fora da curva — Vane sibilou, os olhos fixos no núcleo central escondido sob a carcaça. — Onde um sucateiro de nível cinco consegue liga de titânio de grau militar? Entregue a senha do log de hardware agora, ou seu mecha será confiscado para desmanche.
O suor escorria pela minha nuca. Dei um passo à frente, forçando a voz a manter a calma.
— Instrutor, se o senhor forçar o acesso, a sobrecarga vai fritar o sistema de resfriamento. Olhe aqui — apontei para uma microfissura no chassi, fruto de meses de negligência da própria Academia. — A vibração é um erro de fabricação padrão, não uma alteração minha. O senhor quer um sucateiro funcional ou um amontoado de peças inúteis para o seu inventário?
Vane estreitou os olhos, a mão pairando sobre o console. Ele inspecionou a falha, o cenho franzido. Ele sabia que eu mentia, mas também sabia que o meu desempenho recente era o único ponto de interesse real em um mar de cadetes medíocres. Ele aceitou a desculpa com um aviso gélido: — Você está escondendo algo maior que uma peça sucateada, Kaelen. Não me obrigue a ser o único a descobrir o que é.
Eu mal tive tempo de soltar o ar quando Sora surgiu no corredor. Ela não caminhava; ela desfilava, seu uniforme impecável contrastando com a graxa que manchava minhas mãos. Atrás dela, dois guardas de elite bloqueavam a saída.
— Trabalho sujo, Kaelen — ela disse, aproximando-se o suficiente para que o perfume caro se misturasse ao cheiro de óleo. Ela tocou o chassi com a ponta da bota. — Ouvi dizer que o sistema detectou uma anomalia. Seria uma pena se alguém abrisse uma auditoria completa agora.
— A arena está aberta, Sora — respondi, virando o jogo social. — Se quer tanto ver o meu chassi implodir, por que não fazemos isso com o público assistindo? Ou você tem medo de que a sua 'superioridade' seja questionada por uma sucata?
Ela recuou, forçada a manter a fachada de elite, mas antes de sair, ativou um sinalizador de rastreamento no meu chassi. O Módulo X reagiu instantaneamente, entrando em um modo de autodefesa que sobrecarregou o sistema. O rastro estava sendo enviado direto para a facção governante. O protocolo de segurança militar iniciou a varredura final. Eu tinha trinta segundos para esconder o rastro, ou tudo estaria perdido.