Interface Proibida, Custo Imediato
O cheiro de ozônio e isolante queimado saturava a Oficina de Sucata, um contraste metálico com o suor frio que escorria pela espinha de Kaelen. O Módulo X, uma relíquia pré-cataclismo extraída dos escombros, repousava sobre a interface neural de seu chassi como um parasita faminto. Se o Instrutor Vane aparecesse agora, a posse daquela peça de contrabando seria o prego final em seu caixão acadêmico.
Kaelen cravou os dedos nos cabos de fibra ótica. Com um suspiro trêmulo, ele iniciou o spoof de código. O sistema do mecha, um modelo obsoleto da classe Sucateiro, gritou em protesto. Linhas de erro em vermelho escarlate saltavam na tela, exigindo autorização que ele não possuía. Kaelen ignorou o aviso de falha catastrófica e forçou a sobreposição dos logs. — Aceite — sibilou ele, os dentes cerrados, enquanto a interface neural tentava ejetar o módulo com uma descarga elétrica que fez seus músculos contraírem violentamente. A dor foi como um prego em brasa atravessando seu crânio, mas o sistema finalmente silenciou. O zumbido do motor mudou de um ronco irregular para um pulso grave e sincronizado. O chassi estava vivo, mas o cockpit começou a aquecer instantaneamente.
Ele não esperou. Kaelen inclinou o manche na arena privada. O mecha, antes uma carcaça pesada, girou sobre o eixo com uma agilidade predatória. Ele disparou um soco contra o boneco de teste; o impacto foi cirúrgico, destruindo o metal reforçado. O log de combate indicou um ganho de 40% na eficiência, mas o contador de temperatura subiu em um salto perigoso. O sistema de resfriamento, sobrecarregado, começou a chiar. O Módulo X não estava apenas otimizando a resposta; ele estava mascarando a assinatura energética do mecha, criando uma ilusão de estabilidade que escondia o consumo excessivo.
A porta pneumática sibilou, revelando a silhueta imponente de Vane. O instrutor não caminhava; ele inspecionava como um predador. — O chassi está emitindo uma assinatura térmica irregular, cadete — Vane disparou, os olhos estreitados fixos na máquina de Kaelen. — Relatório.
Kaelen sentiu o pulso acelerar enquanto seus dedos dançavam sobre a interface, forjando logs de erro em milissegundos. — Falha no dissipador secundário, senhor. Superaquecimento crônico devido à idade dos componentes.
Vane deu um passo à frente, a bota metálica ecoando no metal. Ele estendeu a mão, o sensor embutido em sua luva brilhando em um azul inquisidor. — Diagnóstico de sistema. Se eu encontrar vestígios de modificações proibidas, você termina o semestre na lixeira.
O feixe de luz varreu o chassi como um bisturi. Kaelen redirecionou o fluxo de dados no último segundo, sobrepondo uma assinatura estável ao pico de poder proibido. Vane encarou a tela flutuante com desdém. O erro forjado parecia legítimo, mas o instrutor manteve o olhar frio. — Você tem até o amanhecer para provar que essa sucata ainda voa, ou eu mesmo o reduzirei a pó.
Na Arena Principal, o ar dentro do Sucata-09 tornou-se uma mistura tóxica de ozônio e metal queimado. Kaelen sentiu o suor escorrer, unindo-se à eletricidade estática que subia por sua espinha. À sua frente, o mecha de Sora deslizava com uma fluidez insultante. Ela disparou uma rajada de treino, o impacto contra a blindagem ressoando como sinos de funeral. O calor no cockpit subiu dez graus em segundos. A visão de Kaelen escureceu nas bordas. Ele sabia que Vane observava da tribuna, procurando qualquer sinal de falha. A temperatura do cockpit atingiu níveis críticos. Kaelen precisava vencer ou ser incinerado, e Sora, das arquibancadas, observava com olhos frios que prometiam um inferno ainda maior na próxima arena.