Chapter 10
A luz da tela do computador, um verde doentio que parecia corroer a retina, era a única coisa que mantinha Rafael ancorado à realidade. O cibercafé na Rua dos Gusmões cheirava a ozônio e desespero, um odor que se misturava à umidade sufocante de São Paulo. A barra de progresso do upload dos arquivos da Gaveta 13 tremeluzia em 42%. Faltavam exatas três horas para o prazo final do Enforcer. Rafael não estava apenas enviando documentos; ele estava desmantelando a fundação da carreira política de seu pai, J.V., tijolo por tijolo. A cada byte transferido, a traição de Lúcia ardia como uma queimadura química. Ela não era uma vítima; era a arquiteta, a peça que conectava o sequestro de Clara ao dinheiro sujo que financiou o poder da família.
O cursor travou. Rafael sentiu o estômago revirar. Ele bateu na lateral da torre de metal, um gesto inútil de frustração. O ícone de rede mudou de um azul estável para um vermelho intermitente. O Enforcer não estava apenas caçando-o fisicamente; ele estava estrangulando a infraestrutura da cidade, isolando cada ponto de conexão. O celular de Rafael vibrou com uma notificação de geolocalização. O Enforcer estava enviando um sinal direto, um ping que revelava sua posição exata: Rua 13 de Maio. O Enforcer não estava se escondendo; ele estava convidando Rafael para o abate. Com um movimento brusco, Rafael arrancou o chip do aparelho e esmagou o vidro contra a quina da mesa. O upload continuava, mas agora, sem proteção, corria o risco de ser interceptado a qualquer momento. Ele saiu para a chuva, o ar frio colando a camisa ao corpo, sabendo que a única forma de garantir a verdade era estar lá quando o servidor fosse derrubado.
A chuva na Praça da Sé não lavava o asfalto, apenas espalhava a fuligem. Dentro de uma cabine telefônica, Rafael discou o número que o Enforcer enviara. Lúcia atendeu no primeiro toque. Sua voz estava embargada, um sussurro seco que carregava o peso de décadas de segredos.
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